Existe uma pergunta que começa a ficar inevitável quando se observa o Palmeiras no mercado: o clube se tornou melhor em vender jogadores do que em contratar? A provocação parece simples, mas a resposta está longe de ser. O Verdão construiu uma máquina extraordinária para formar, desenvolver e valorizar atletas. Nos últimos dois anos, arrecadou €282,9 milhões em vendas( cerca de R$ 1,67 bilhões), sendo o clube não europeu que mais faturou no período. E as quatro maiores negociações da história do clube aconteceram justamente nesse intervalo: Endrick, Estêvão, Vitor Reis e Allan.
O que torna a discussão interessante é que esse sucesso criou uma segunda obrigação. Quando um clube consegue vender quatro jogadores formados em casa por cerca de €167 milhões, como aconteceu com o quarteto, ele passa a ter uma capacidade financeira muito maior para buscar soluções no mercado. A pergunta, portanto, não é simplesmente se o Palmeiras compra jogadores bons. É se consegue transformar o dinheiro produzido por sua excelente formação em desempenho com a mesma eficiência. Afinal, vender bem é uma parte da operação, substituir o que foi vendido é a outra.
O ano de 2025 foi o melhor exemplo dessa mudança de comportamento. O Verdão investiu aproximadamente R$ 700 milhões em reforços, com Vitor Roque, Paulinho, Ramón Sosa e Facundo Torres entre as principais operações. Vitor Roque custou cerca de R$ 156 milhões; Paulinho, aproximadamente R$ 115,8 milhões; Ramón Sosa, cerca de R$ 90 milhões; e Facundo Torres, R$ 72,9 milhões. Não são apostas marginais. São investimentos que carregam a expectativa de protagonismo. E quanto maior o investimento, maior precisa ser a capacidade de explicar o retorno.
É aqui que Paulinho se torna um caso emblemático. A SEP pagou muito por um jogador que chegou com uma questão física conhecida e, desde então, sua disponibilidade ficou muito abaixo do que se esperava de alguém contratado para elevar o patamar ofensivo. Mas reduzi-lo a um erro seria simplificar demais, ele também entregou momentos importantes relevantes. O ponto mais interessante é outro. Uma contratação de alto valor não precisa ser apenas tecnicamente boa, ela precisa estar disponível para cumprir a função que justificou o investimento. Quando isso não acontece, surge um custo esportivo que vai além do preço pago.
Jefté, Sosa, Martínez e Rômulo aumentam a complexidade da reflexão
Jefté apresenta uma situação diferente e exige ainda mais cautela. O clube investiu cerca de €6 milhões no lateral, aproximadamente R$ 38 milhões, mas uma lesão no joelho interrompeu sua trajetória antes que fosse possível construir uma avaliação esportiva definitiva. Transformar isso automaticamente em erro de mercado seria injusto. O caso, entretanto, levanta uma questão importante sobre gestão: quando um clube investe pesado, quanto do risco físico, de adaptação e de disponibilidade foi considerado antes da operação? Contratar bem significa saber quais riscos estão sendo assumidos.
Ramón Sosa também escapa de uma sentença definitiva. O paraguaio custou cerca de R$ 90 milhões e foi contratado justamente por características que Abel buscava para aumentar sua capacidade de desequilíbrio. Só que adaptação, concorrência e problemas físicos impediram que sua história fosse linear. E isso ajuda a separar duas coisas que frequentemente confundimos: um jogador pode ser bom e, ainda assim, não representar uma contratação eficiente naquele contexto. O mercado premia quem consegue transformar qualidade em desempenho no time que pagou por ela.

Emiliano Martínez acrescenta outra camada. O volante custou cerca de R$ 47 milhões e se tornou uma peça útil para Abel, mas a pergunta que merece ser feita é se o investimento comprou transformação ou apenas composição. Essa diferença é enorme. Um jogador de rotação pode ser importante, mas precisa ser analisado como jogador de rotação. Quando o clube paga valores elevados, a função esperada precisa estar muito clara.
O mesmo raciocínio vale para outras contratações que não necessariamente fracassaram, mas também não se converteram em protagonistas. O problema talvez não seja contratar jogadores ruins, e sim pagar como protagonista por quem entrega como peça de composição. Rômulo talvez seja o caso que mais desafia a critica de que o Palmeiras simplesmente contrata mal.
O meia chegou por cerca de R$ 7,4 milhões por 70% dos direitos, mas teve apenas 16 partidas pelo clube e não marcou. Longe do Palmeiras, porém, sua trajetória tomou outro rumo: em 2026, vive sua temporada mais goleadora pelo Novorizontino. Isso muda a pergunta. O Palmeiras errou ao identificar o jogador ou errou ao não conseguir desenvolvê-lo dentro de seu próprio ambiente?
Maurício e Anibal entram na análise sobre a necessidade estrutural de momento
Essa distinção é fundamental, porque um clube que se tornou referência mundial na formação precisa ser avaliado não apenas pela capacidade de descobrir talentos, mas também pela capacidade de fazê-los render depois que chegam ao elenco profissional. Também existem os contraexemplos que impedem qualquer julgamento simplista. Maurício é um deles.
Depois de um primeiro semestre discreto em 2024, o meia se consolidou em 2025 com 53 jogos, 36 titularidades, dez gols e 11 assistências, tornando-se uma das peças mais produtivas do elenco, inclusive, chegando à Copa e sendo um trunfo importante para o Verdão na temporada de 2026. Ele seguiu uma lógica, bem semelhante a Anibal Moreno, que resolveu uma necessidade estrutural, embora até já tenha deixado o Palestra. Esses casos são importantes porque mostram que o Palmeiras sabe, sim, contratar. O problema está na irregularidade do retorno entre uma operação e outra.
Talvez, então, a pergunta correta não seja “o Palmeiras contrata mal?”. Talvez seja: o Palmeiras é mais eficiente criando valor do que comprando valor? Quando Endrick, Estêvão, Vitor Reis e Allan são desenvolvidos dentro de casa e depois vendidos por cifras extraordinárias, o clube controla quase todo o processo de criação do ativo. No mercado, compra um jogador já formado, paga pelo que ele já produziu, assume o risco de adaptação e ainda precisa encontrar a maneira de fazê-lo funcionar sob Abel Ferreira. É uma operação muito mais complexa. E talvez seja justamente aí que esteja o próximo salto de maturidade do Palmeiras.
Afinal, qual o desafio da máquina palestrina no mercado
A SEP já provou que sabe transformar talento em patrimônio. O desafio agora é provar que sabe transformar patrimônio em desempenho com a mesma eficiência. Paulinho, Jefté, Sosa, Emiliano Martínez e Rômulo não contam a mesma história, assim como Maurício e Aníbal Moreno representam argumentos favoráveis ao trabalho realizado no mercado. Por isso, não existe uma condenação simples a fazer.
Existe uma reflexão mais incômoda: se o Palestra se tornou uma máquina extraordinária para vender jogadores, precisa também construir uma máquina igualmente eficiente para decidir quem comprar, quanto pagar e, principalmente, como transformar esse investimento em futebol. Vender bem já deixou de ser novidade no Maior Campeão do Brasil. O próximo desafio é comprar bem.





