Poucas coincidências de calendário poderiam ser tão simbólicas quanto esta. Em 12 de agosto de 2018, Gustavo Gómez estreava pelo Palmeiras na vitória por 1 a 0 sobre o Vasco. Oito anos depois, nesta mesma data, ele deve voltar ao time para enfrentar o Cerro Porteño pela Libertadores, após uma recuperação surpreendente rápida, que fez Abel Ferreira o denominar como o “nosso Robocop”.
Quando penso na trajetória de Gómez, não consigo reduzi-la aos números, embora eles sejam impressionantes. Ele já chegou a 13 títulos pelo Palmeiras, marca que o transformou no jogador mais campeão da história do clube. Mas, para mim, o que explica sua idolatria está menos nas taças e mais na maneira como ele ajudou a construí-las.
Gómez representa uma liderança que não depende apenas da faixa de capitão. Ele organiza, orienta, cobra, protege e, principalmente, transmite segurança. Taticamente, sua presença também ultrapassa o simples ato de defender: sua leitura dos espaços, força nos duelos e capacidade de atuar em diferentes estruturas fizeram dele uma peça central na transformação do Verdão em uma equipe tão competitiva.
Goméz ao lado de lendas inesquecíveis do Palestra
E existe algo que considero particularmente especial: Gómez nunca pareceu precisar pedir licença para pertencer ao Palmeiras. Ele chegou em 2018, rapidamente ganhou espaço e, com o tempo, passou de reforço estrangeiro a referência de uma geração. Hoje, já é o terceiro zagueiro que mais disputou partidas pelo clube, atrás somente de Valdemar Carabina e Luís Pereira.
É justamente aí que começo a olhar para os gigantes que vieram antes dele. Junqueira, Valdemar Carabina, Luís Pereira, Alfredo Mostarda, Cléber e Baldocci construíram diferentes capítulos da identidade defensiva palmeirense. Não acho justo transformar épocas distintas em uma competição de quem foi “melhor”. Prefiro enxergar Gómez como alguém que conseguiu escrever seu próprio capítulo nessa linhagem.
Luís Pereira tinha elegância, personalidade e uma qualidade técnica que parecia desafiar a própria posição. Valdemar Carabina carregava a força de uma defesa que marcou época. Junqueira simbolizava liderança e pertencimento. Cléber, Mostarda e Baldocci também deixaram suas marcas. Gómez, por sua vez, trouxe para a mesma camisa uma combinação muito particular de imposição, regularidade, espírito competitivo e liderança.
A arquibancada Alviverde se vê no Capitão
Talvez seja por isso que eu veja sua idolatria de uma forma diferente. Ídolo não é apenas quem joga bonito, quem faz um gol inesquecível ou quem acumula troféus. Ídolo é aquele jogador que, depois de tantos anos, passa a fazer parte da memória afetiva do torcedor. E Gómez chegou a esse lugar porque o palmeirense aprendeu a reconhecer nele uma espécie de tradução humana daquilo que o clube mais valoriza: competir até o último instante.
Muito mais que parte da história
Por isso, quando ele entrar em campo hoje, eu não vou enxergar apenas o retorno de um zagueiro. Vou enxergar o reencontro de uma história que começou exatamente nesta data, em 2018, e que já colocou Gustavo Gómez entre os grandes defensores que vestiram a camisa do Palmeiras. Talvez o tempo ainda escreva muitas páginas, mas algumas já parecem definitivas: Gómez deixou de ser apenas parte da história. Ele se tornou história.





