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Direto da Redação

Opinião: Vitor Roque tem crédito, mas Palmeiras já olha para o extrato e não quer saber de parcelamento

O atacante não precisa quitar a dívida sozinho, mas já precisa apresentar algum recibo. O Palestra também precisa ajudá-lo, mas Vitor terá de mostrar por que ainda merece tanto crédito

Vitor Roque tem crédito, mas o Verdão espera respostas - (Photo by Ricardo Moreira/Getty Images)
© Getty ImagesVitor Roque tem crédito, mas o Verdão espera respostas - (Photo by Ricardo Moreira/Getty Images)

Eu tenho uma certa simpatia por Vitor Roque. Talvez até mais do que deveria, considerando que centroavante, no futebol, costuma ser uma profissão de risco para quem gosta de tranquilidade. Mas também tenho uma implicância particular com a ideia de que potencial seja uma espécie de cartão sem limite. Vitor chegou ao Palmeiras com crédito de sobra. O problema é que até banco generoso, uma hora, pergunta quando começa o pagamento.

Não foi o Palestra que inventou essa expectativa sozinho. Vitor chegou carregando a fama de atacante que poderia fazer diferença, o investimento de uma contratação importante e a expectativa de quem enxergava nele uma solução para o ataque. Não desembarcou nas Alamedas como quem pega uma senha e aguarda atendimento. Chegou com tratamento de protagonista. É justo, portanto, que agora seja cobrado como alguém que recebeu esse tratamento.

Não estou dizendo que Vitor Roque virou problema. Longe disso. Também não acho que meia dúzia de partidas ruins seja suficiente para transformar uma contratação em erro histórico. O futebol brasileiro tem essa mania meio adolescente de transformar jogador em gênio numa terça-feira e em patrimônio a ser devolvido na quinta. Não funciona assim. Vitor continua jovem, continua talentoso e continua tendo recursos para mudar essa história.

Só que existe uma diferença entre ter paciência e abrir uma conta conjunta com o jogador. O Verdão já teve paciência. Abel já teve paciência. A torcida também, dentro do possível, teve paciência. E o próprio Vitor teve tempo para entender o clube, o elenco e a exigência que existe por ali. Chegamos, portanto, àquela parte menos simpática da história: agora é preciso começar a entregar alguma coisa que não seja apenas a esperança de que a entrega virá.

O duro karma de um camisa 9

Centroavante tem dessas crueldades. Pode participar bem do jogo, pressionar a saída, abrir espaço, brigar com zagueiro e fazer um trabalho invisível de enorme utilidade. Tudo muito bonito. Mas, no fim da noite, alguém inevitavelmente pergunta: “E o gol?”. É quase uma injustiça profissional da função. O sujeito pode passar 85 minutos trabalhando como um estivador de navio e será lembrado pelos cinco minutos em que não apareceu na área. Ainda assim, é justamente essa conta que Vitor precisa começar a pagar.

E eu não gostaria que Abel transformasse isso numa caça ao culpado. O Palmeiras tem problemas que não cabem dentro da chuteira de um único jogador. Vitor não precisa virar o bode expiatório de uma equipe que também busca respostas. Mas uma coisa não elimina a outra. O time pode precisar melhorar para ajudá-lo, e Vitor pode precisar melhorar para ajudar o time.

O que muda tudo é o calendário. A temporada entrou naquela fase em que ninguém mais quer saber se a engrenagem está quase funcionando. Libertadores, Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro não são cursos de extensão em adaptação. São provas finais. E, quando chegam os jogos que podem decidir um título, a diferença entre “pode ser decisivo” e “foi decisivo” deixa de ser semântica. Vira resultado.

A hora do Tigrinho voltar a rugir

Por isso, eu vejo Vitor Roque diante de uma oportunidade que é também uma cobrança. Ele não precisa marcar três gols numa noite para recuperar o prestígio. Não precisa carregar o Palmeiras nas costas, porque ninguém deveria carregar um time desse tamanho sozinho. Precisa apenas começar a produzir uma sequência de sinais de que aquela expectativa toda não foi depositada numa conta sem saldo.

É aí que entra o tal crédito. Ele ainda existe. Seria absurdo dizer o contrário. O problema é que crédito não é patrimônio. Crédito é confiança antecipada. E confiança antecipada tem uma característica inconveniente: espera ser confirmada. Quanto mais demora, mais perguntas aparecem. Primeiro perguntam se é adaptação. Depois perguntam se é fase. Em seguida, perguntam se é confiança. Até que alguém, normalmente com cara de poucos amigos, pergunta o que todos estavam evitando: afinal, quando a coisa começa a funcionar?

Sobre saldos, créditos e pagamentos no ‘Banco Palestrino’

Eu torço para que Vitor responda jogando. É a maneira mais simples e também a mais convincente. Não precisa de declaração, postagem, promessa ou discurso motivacional. Precisa de presença na área, participação nas jogadas e, principalmente, gols quando o Palmeiras mais precisar deles. O atacante ainda tem crédito no clube, mas a conta começou a chegar à mesa. E eu, que gosto de Vitor Roque, prefiro vê-lo pagando essa conta com gols a vê-lo tentando negociar o vencimento. Porque no futebol, ao contrário do banco, ninguém aceita parcelamento eterno.

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