A nova lesão de Paulinho representa uma perda para o Palmeiras, mas o impacto mais interessante dela talvez não esteja em descobrir quem ocupará sua posição. O atacante sofreu uma lesão no tendão do adutor longo da perna direita e deve ficar fora até depois da próxima Data Fifa. Mais do que abrir uma vaga, o desfalque retira do elenco uma característica específica que Abel Ferreira vinha tentando reintegrar ao time depois de um longo período de afastamento.
Paulinho voltou a ser titular contra o Atlético-MG em julho, depois de 441 dias sem iniciar uma partida pelo Verdão, e permaneceu em campo por 65 minutos. O retorno, portanto, ainda estava longe de representar uma engrenagem consolidada no modelo. Era uma possibilidade que começava a ser reconstruída. A nova lesão interrompe esse processo e, justamente por isso, Abel perde a chance de desenvolver uma alternativa ofensiva que ainda estava sendo incorporada ao funcionamento da equipe.
A diferença é importante porque Paulinho não pode ser resumido à posição que ocupa. Seu valor está também na capacidade de atacar espaços, acelerar determinadas jogadas e aparecer em zonas diferentes do ataque. É uma característica que interfere no comportamento da defesa adversária antes mesmo de a bola chegar até ele. Por isso, colocar outro jogador no mesmo setor não significa necessariamente reproduzir aquilo que o camisa 10 oferece. A substituição posicional pode ser simples; a substituição funcional é muito mais complexa.
O próprio Palestra já mostrou que consegue construir soluções sem Paulinho. Contra o Santos, por exemplo, Abel montou uma estrutura com Arias, Maurício, Vitor Roque e Flaco López no setor ofensivo, em uma formação que deu fluidez ao time e permitiu explorar diferentes caminhos para chegar ao gol. A equipe venceu por 3 a 0, criou 19 finalizações e teve Flaco como protagonista, enquanto Andreas Pereira e Giay também participaram diretamente da construção ofensiva.
Sem Paulinho, Abel precisa usar o famoso ‘Todos somos um’ como tática
Esse jogo oferece uma pista importante: a ausência de Paulinho não obriga o Palmeiras a procurar um novo jogador capaz de repetir seus movimentos. Pode obrigar Abel a distribuir essas responsabilidades entre diferentes peças. Em vez de depender de uma ruptura individual, o time pode buscar mais associações por dentro, maior amplitude pelos lados ou uma participação mais agressiva dos laterais. A ideia não é reproduzir Paulinho, mas produzir novamente os efeitos que o Alviverde precisa para desorganizar uma defesa.
Isso também explica por que a relação entre Flaco López e Vitor Roque pode ganhar importância. Com o argentino funcionando como referência, oferecendo apoio e presença física, Roque pode receber mais liberdade para atacar profundidade e explorar espaços. Foi justamente uma configuração que Abel utilizou contra o Santos, ao lado de Arias e Maurício. Nesse cenário, a ausência de Paulinho não precisa reduzir a mobilidade ofensiva; pode exigir que outros jogadores assumam parte dessa responsabilidade.

Há ainda uma segunda possibilidade: aumentar o peso do jogo associativo. Andreas, Maurício e Arias podem ocupar zonas de aproximação e fazer o Palmeiras chegar ao último terço por combinações, em vez de depender exclusivamente de acelerações individuais. A vitória sobre o Santos mostrou como essa alternativa pode funcionar quando o time consegue circular a bola com velocidade e ocupar diferentes espaços. Flaco marcou duas vezes, Andreas voltou a marcar e Giay apareceu para dar assistência, evidenciando que a produção ofensiva pode ser distribuída.
A exigência sobre o coletivo aumenta
O problema é que nenhuma dessas soluções será automaticamente equivalente ao que Paulinho acrescentaria. Esse é justamente o desafio tático de Abel. Um jogador pode oferecer amplitude, outro pode entregar associação, um terceiro pode atacar profundidade, mas o treinador precisa organizar essas características para que não funcionem de maneira isolada. A ausência de uma peça específica pode exigir que o coletivo seja ainda mais coordenado. E esse talvez seja o verdadeiro teste para a profundidade do Palmeiras.
Por isso, a lesão de Paulinho também pode ser encarada como uma oportunidade de ampliar o repertório. O Palmeiras está entrando em um período de enorme exigência, com Copa do Brasil, Brasileirão e Libertadores em disputa. Depender de uma única forma de atacar seria um risco, especialmente quando o calendário impõe diferentes adversários e contextos. Se Abel conseguir fazer o time alternar entre ruptura, associação, amplitude e ocupação da área, a equipe poderá perder uma característica individual sem perder capacidade ofensiva.
Repertório do elenco desafiado
No fim, Paulinho não precisa ser substituído por outro Paulinho. O Palmeiras precisa encontrar maneiras diferentes de produzir aquilo que o camisa 10 poderia oferecer. Essa é a diferença entre simplesmente preencher uma vaga e adaptar um modelo de jogo. O verdadeiro tamanho do elenco não aparece quando todos estão disponíveis, mas quando uma característica importante desaparece e o treinador consegue redistribuir suas funções sem desmontar a equipe. A ausência de Paulinho, portanto, não precisa ser apenas um problema para Abel: pode ser o teste que mostrará se o Palmeiras possui, de fato, repertório suficiente para atacar de mais de uma maneira.





