Durante muito tempo, a discussão sobre categorias de base no futebol brasileiro parecia simples: revelar um bom jogador significava encontrar alguém capaz de chegar ao time principal. O Palmeiras, porém, alcançou um estágio que torna essa lógica mais complexa. A negociação encaminhada de Riquelme Fillipi com o Inter Miami surge justamente como um novo capítulo para uma reflexão maior: afinal, quando um clube se transforma em uma potência na formação de talentos, ele passa a formar jogadores apenas para vestir sua camisa ou também para alimentar um mercado que reconhece cada vez mais o valor daquela produção?
Riquelme tem apenas 19 anos, está no Verdão desde o Sub-15 e vive uma situação que ajuda a compreender essa nova realidade. Ele já disputou partidas pelo profissional, treinou com Abel Ferreira e, inclusive, esteve no banco na recente vitória sobre o Santos pela Copa do Brasil. Ao mesmo tempo, continuou transitando entre o elenco principal e a base. Em 2025, foram 23 gols e quatro assistências em 42 jogos pelo Sub-20. Agora, com a transferência encaminhada para a MLS, sua trajetória recoloca uma pergunta que não precisa carregar crítica: qual é o destino natural de um talento quando o clube que o formou também se tornou grande demais para oferecer espaço a todos?
Os números ajudam a entender por que essa discussão ganhou outra dimensão. Desde 2020, 51 jogadores formados na Academia já atuaram pelo time profissional. Apenas em 2025, oito atletas da base estrearam, enquanto Arthur se tornou mais uma novidade em 2026. Portanto, não seria correto tratar a SEP como um clube que simplesmente produz e vende sem abrir as portas do profissional. A integração existe, as oportunidades existem e o próprio modelo foi construído para aproximar diariamente as categorias de formação do ambiente de alto rendimento.
Alta concorrência e fonte bilionária: dois fatores que moldam os jovens formados
Mas existe uma diferença importante entre chegar ao profissional e conseguir permanecer nele. É nesse ponto que o crescimento esportivo do Palestra torna o debate mais interessante. O atual elenco reúne jogadores consolidados, contratações de alto investimento e atletas que chegaram para disputar espaço imediatamente. Quando a exigência por títulos é permanente, cada vaga deixa de representar apenas uma oportunidade de desenvolvimento e passa a carregar o peso de uma temporada inteira. A porta da Academia continua aberta, mas atravessá-la definitivamente talvez seja hoje mais difícil do que em outros momentos.
Ao mesmo tempo, a força do mercado transformou a base em algo ainda maior do que uma simples fonte de reposição técnica. O Palmeiras calcula ter arrecadado R$ 2,4 bilhões em 27 vendas diretas desde o início de 2022, e 18 dessas negociações envolveram jogadores formados no próprio clube. As cinco maiores vendas do período — Endrick, Estêvão, Allan, Vitor Reis e Luis Guilherme — foram justamente Crias da Academia. Isso não significa que a base tenha deixado de servir ao time principal. Pelo contrário: parte considerável dessa força econômica nasceu porque esses jogadores também tiveram a vitrine do Palmeiras antes de se tornarem ativos disputados internacionalmente.
Talvez esteja aí o ponto mais fascinante dessa transformação. O Palmeiras não parece precisar escolher entre formar para jogar e formar para vender. Os dois caminhos passaram a coexistir. Endrick e Estêvão ajudaram o time antes de saírem. Vitor Reis conquistou espaço. Danilo construiu uma trajetória relevante no profissional. Outros, porém, podem encontrar uma rota diferente, com menos minutos no time principal e uma oportunidade de mercado surgindo antes que a consolidação aconteça. Cada caso carrega um tempo próprio, e talvez seja impossível enquadrar todos dentro de uma única definição de sucesso.
Nem todo talento formado terá a mesma trajetória de Endrick
O presente da categoria reforça essa complexidade. O Clube chegou à quinta final consecutiva do Campeonato Brasileiro Sub-20 e, segundo o técnico Allan Barcellos, o trabalho cotidiano próximo ao elenco profissional é justamente um dos diferenciais da estrutura. Desde 2022, o clube disputou 56 torneios oficiais de base e alcançou 37 finais, números que ajudam a explicar por que a Academia passou a produzir tantos nomes capazes de chamar atenção antes mesmo de completarem uma trajetória longa no profissional. Quanto mais eficiente é a formação, mais cedo o mundo passa a olhar para ela.
E talvez seja justamente aí que Riquelme Fillipi simbolize uma nova fase dessa história. Nem todo talento formado terá a mesma trajetória de Endrick. Nem todo jogador precisará disputar cem partidas para representar um retorno esportivo ao clube. Alguns construirão seu espaço e permanecerão; outros sairão, deixarão receita, percentuais futuros e, eventualmente, seguirão uma carreira que continuará conectada financeiramente à Academia. Jhon Jhon é um exemplo recente de como uma negociação inicial pode gerar novos rendimentos quando o clube mantém participação em uma futura transferência.
Os dois caminhos das Crias da Academia
Por isso, talvez a pergunta correta não seja se o Palmeiras forma para si mesmo ou para o mercado. A resposta, hoje, parece estar justamente na convivência entre os dois. O desafio não é necessariamente escolher um destino para cada promessa, mas compreender que o sucesso de uma categoria de base passou a ter múltiplas formas: vestir a camisa do profissional, conquistar títulos, gerar patrimônio, abrir caminho para novas gerações ou, em alguns casos, fazer tudo isso antes de partir. O Palmeiras construiu uma Academia tão valorizada que seus talentos passaram a pertencer, simultaneamente, ao sonho esportivo do clube e à atenção de um mercado cada vez mais disposto a pagar por aquilo que ela é capaz de produzir.





