A semifinal entre Palmeiras e Vasco pela Copa do Brasil ganhou um componente que não se limita à rivalidade esportiva. Antes mesmo de concluir a aquisição da SAF cruz-maltina, Marcos Lamacchia já participava de movimentos que produziram efeitos concretos no departamento de futebol carioca. O enteado de Leila Pereira ajudou a viabilizar três contratações do clube e sinalizou garantias financeiras para assegurar os pagamentos aos clubes vendedores.
Segundo apuração publicada pelo UOL neste sábado (31), os negócios envolveram Santiago Sosa, Allan Lescano e Facundo Colidio, três argentinos cujas contratações somaram aproximadamente R$ 95 milhões. Marcos sinalizou à direção vascaína que poderia garantir os compromissos financeiros assumidos com os clubes envolvidos. A movimentação antecedeu a aprovação da venda pelos associados e foi sustentada pelo projeto de investimento que prevê R$ 500 milhões destinados exclusivamente ao futebol ao longo de cinco anos.
O detalhe cronológico merece atenção porque estabelece uma diferença entre a formalização de uma aquisição e a participação econômica que a antecede. A Almirante Participações, empresa ligada a Marcos e Mário Junqueira, ainda dependia das etapas regulatórias para assumir integralmente o controle da SAF, mas já estava envolvida na viabilização de operações relevantes do departamento de futebol.
Em 23 de outubro, os associados do Vasco aprovaram a venda de 90% das ações da SAF à Almirante Participações. A proposta recebeu 90,6% dos votos favoráveis, depois de também passar pelas instâncias deliberativas do clube. O acordo prevê, além dos R$ 500 milhões para o futebol, investimentos em infraestrutura, categorias de base e compromissos relacionados às dívidas da associação e da SAF.
ANRESF de olho no Vasco e no Palmeiras
A aprovação interna, entretanto, não encerrou o caminho regulatório: a operação continua submetida à análise da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf) e aos procedimentos pertinentes no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). É justamente nesse intervalo entre a aprovação associativa e a conclusão regulatória que aparece a questão envolvendo o Palmeiras.
Marcos é enteado de Leila Pereira e filho de José Roberto Lamacchia, marido da presidente alviverde e integrante do Conselho Deliberativo do clube. A relação familiar, por si só, não demonstra participação de Leila nos negócios conduzidos pelo enteado. O empresário, por sua vez, é apresentado por seus representantes como alguém que possui patrimônio, interesses e atividades empresariais próprios.
A discussão institucional, porém, não se limita à identificação de quem assina os contratos. Isso porque a Anresf instaurou um procedimento para verificar eventual conflito de interesses na operação, considerando as regras de integridade e sustentabilidade financeira do futebol brasileiro. Como medida cautelar, determinou restrições às relações comerciais entre Vasco e Palmeiras, além de impedir novas operações envolvendo o clube carioca e empresas ligadas ao grupo econômico de Leila.

Durante reunião de Conselheiros, Leila foi ácida ao se referir aos questionamentos de Conselheiros sobre um possível conflito de interesses Foto: Ettore Chiereguini/AGIF
Na prática, estão vedadas novas negociações de atletas e colaborações entre as instituições nos termos estabelecidos pela agência. As operações anteriores não foram automaticamente anuladas, e a medida não representa uma decisão definitiva sobre a existência de infração. O regulamento que orienta essa discussão procura impedir que uma mesma pessoa detenha controle ou influência significativa sobre clubes que disputam as mesmas competições.
A análise também considera determinadas relações de parentesco e estruturas de influência, justamente para evitar que a separação formal entre empresas esconda uma concentração de poder. É nesse terreno que a investigação precisa avançar: identificar a autonomia efetiva dos envolvidos, a natureza das relações empresariais e a existência ou não de influência relevante sobre as organizações esportivas. Não se trata de transformar parentesco em prova, mas de verificar se a estrutura atende às exigências regulatórias.
A trajetória da Almirante Participações também integra esse contexto. Conforme informações publicadas pelo UOL, a empresa surgiu em 2024 com outra denominação, Top Gol, e teve uma estrutura societária que envolveu inicialmente empresas relacionadas a José Roberto Lamacchia e Leila Pereira. A presidente deixou essa composição em abril daquele ano, enquanto José Roberto permaneceu até agosto de 2025, quando Marcos assumiu o controle. A cronologia ajuda a compreender a formação empresarial que antecedeu a negociação vascaína, mas não permite concluir, isoladamente, que Leila tenha participado da aquisição ou das decisões tomadas posteriormente.
Assunto agita os bastidores da oposição palestrina
No Palmeiras, o assunto passou a integrar o debate entre situação e oposição. Conselheiros oposicionistas questionaram a permanência de José Roberto Lamacchia no Conselho Deliberativo e levantaram a possibilidade de conflito de interesses. Leila rejeitou as suspeitas e afirmou que sua dedicação e a do marido ao clube permanecem integrais até dezembro de 2027, quando termina seu segundo mandato. A presidente também manifestou incômodo com os questionamentos, enquanto integrantes da oposição discutem a possibilidade de solicitar uma sindicância para examinar o caso. Até o momento, a discussão política não equivale a uma constatação formal de irregularidade.
Há, portanto, duas esferas que precisam ser observadas separadamente. No Vasco, Marcos Lamacchia conduz um projeto de aquisição que já teve aprovação dos associados e cuja estrutura financeira começou a participar de operações do futebol antes da conclusão regulatória. No Palmeiras, Leila precisa lidar com questionamentos relacionados à sua posição institucional e aos vínculos familiares envolvidos. A autonomia empresarial do enteado e a responsabilidade da presidente perante o clube são questões distintas, embora tenham passado a ser examinadas dentro do mesmo episódio.
Tempero para a semifinal da Copa do Brasil
A proximidade dos confrontos entre Palmeiras e Vasco acrescenta visibilidade a uma discussão que já estava em andamento. O primeiro jogo da semifinal coloca frente a frente duas instituições ligadas por uma operação empresarial submetida à fiscalização, com restrições comerciais provisórias em vigor e questionamentos ainda sem julgamento definitivo. Para a SEP, o episódio coloca em discussão os limites entre autonomia empresarial, relações familiares e governança no futebol, justamente quando as regras de integridade passaram a exigir maior transparência sobre estruturas de controle e influência.





