Como quem atravessa um portal que interliga dimensões, o Palmeiras fechou a fase de grupos da Taça Libertadores da América com uma goleada de 5 a 0 sobre o Tigres, da Argentina, na última quarta-feira (21). Desta maneira, o palestrino tem a sensação de vivenciar dois universos completamente distintos, o da preocupante realidade do Campeonato Brasileiro, onde os entraves da falta de organização tática e projeção de jogadas refletem em uma sequência de quatro derrotas, e o da competição continental, onde o Verdão avança colecionando números interessantes e marcas históricas.
Na Libertadores 2020, o Palmeiras cravou a melhor campanha, com 16 pontos e um saldo de inacreditáveis 15 gols. Sua defesa brilhou tomando apenas 2 gols. Chega à fase de mata-mata com a vantagem de poder decidir todos os confrontos com a última partida em sua casa. Em marcas históricas, o Verdão se consolida como o time brasileiro com maior número de gols marcados na história da Copa Libertadores, com 347 em 190 jogos. É o único clube do continente a registrar a melhor campanha nesta etapa do Continental por três temporadas subsequentes neste século.

O jogo contra o time argentino começou com um Palmeiras acuado no Allianz Parque. Time preso com enormes dificuldades para sair jogando, parecia assistir ao fraco Tigre. Aos poucos, foi se soltando e, dentro da já conhecida dificuldade de criar, começou a encaixar jogadas que construíram o poder de fogo alviverde. Raphael Veiga abriu o placar após jogada de linha de fundo feita por Wesley.
Quatro gols alviverdes se caracterizaram por tabelas em que passe e posicionamento foram precisos, tanto de quem fez a assistência quanto de quem recebe para concluir. Wesley participou de duas assistências que resultaram em gols. Sua postura ofensiva e participativa deve garantir a merecida titularidade. Os experimentos dos últimos jogos que os deixaram fora das escalações terminaram em fracasso e o camisa 21 se destaca pela solidez de suas atuações. Não há o porquê de manter o garoto no banco no momento atual.

Rony entrou com nível de acertos incomum. Autor de um gol e garçom para que Veron concluísse para as redes, o camisa 11 pareceu mais leve e objetivo sem os gritos ensandecidos que Luxa dava antes de sua queda. É fato que o adversário apresentava fragilidades, a goleada não foi em cima de uma potência, porém a vitória tem grande importância para um time que, atolado no escasso repertório tático, precisa afirmar seu brio.
A vitória desanuviou a atmosfera de frustração que o Verdão vivenciou praticamente a quarta-feira inteira. Após investida para contratar o técnico Miguel Ángel Ramirez, o Palmeiras ouviu a recusa do espanhol. A comitiva formada para ir ao Equador e realizar a missão de convence-lo brecou na ética do treinador em querer finalizar a temporada no Independiente Del Valle.
O desfecho das negociações ainda teve o jovem técnico afirmando que o convite de um gigante como o Palmeiras o deixou fora de eixo e sem segurança para aceitar. Nas palavras de Ramirez, “São vários fatores e a decisão nunca é fácil. E muito menos quando gigantes te chamam. As pernas tremem. É difícil para mim, porque estou começando a minha carreira profissional e preciso medir bem os passos que dou e pisar em solo firme para seguir avançando”.
Ou seja, tinha real intenção de vir, o fato de acenar com a possibilidade de encontros presenciais com a direção do Palmeiras indica o interesse de Ramirez, mesmo que breve. Mas ficou com receio de abandonar o trabalho seguro, a zona de conforto. Não o culpo, até por todo discurso que ele defende de terminar os trabalhos. Ao mesmo tempo, essa declaração sobre “solo seguro” implica o medo de chegar em clube grande.
Enfim, vida que segue, e como 2020 é um ano de desafios moldados pelos caprichos do destino, não espantará se no sorteio, que será realizado sexta-feira (23), o Palestra pegue o Del Valle nas oitavas de final, em um confronto que colocará o pretendido Ramirez versus Palmeiras, o então gigante renegado.





