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Seleção Brasileira

Análise: Ancelotti começa novo ciclo, mas Seleção ainda tem lacunas importantes no meio-campo

Ancelotti renovou a Seleção após a Copa, mas a convocação deixa uma pergunta: quem será o responsável por organizar o meio-campo brasileiro?

Foto: Rafael Ribeiro/CBF
© RAFAEL RIBEIRO/CBFFoto: Rafael Ribeiro/CBF

A renovação começou, mas a primeira lista de Ancelotti para 2030 ainda deixa dúvidas importantes em setores fundamentais.

A Seleção Brasileira começou oficialmente um novo ciclo. Carlo Ancelotti divulgou nesta quarta-feira sua primeira convocação depois da Copa do Mundo de 2026, iniciando o processo que terá como objetivo principal a preparação para o Mundial de 2030. Depois da eliminação para a Noruega nas oitavas de final, era esperado que algumas mudanças acontecessem. E elas vieram.

A lista tem 26 jogadores e oito estreantes, mostrando que Ancelotti decidiu abrir espaço para uma nova geração. Pedro Morisco, Otávio, Arthur Dias, Jair Cunha, Matheuzinho, Mauro Júnior, Breno Bidon e Gabriel Bontempo receberam a primeira oportunidade na equipe principal. Seis deles atuam no futebol brasileiro, enquanto Jair está no Nottingham Forest e Mauro Júnior defende o PSV.

A renovação, portanto, é real. Mas uma convocação não precisa ser analisada apenas pelo número de caras novas. É preciso olhar para aquilo que a Seleção está construindo, para as posições escolhidas e, principalmente, para os problemas que continuam sem uma solução clara.

E é justamente aí que começo a minha preocupação.

O MEIO-CAMPO AINDA NÃO ME CONVENCE

Eu ainda considero o meio-campo da Seleção Brasileira frágil. Não necessariamente pela falta de bons jogadores, mas pela ausência de algumas características que, na minha visão, deveriam ser obrigatórias para quem veste a camisa do Brasil.

Douglas Luiz e Andrey Santos estão na lista. São jogadores que têm qualidade e vivem suas próprias trajetórias no futebol europeu, mas, particularmente, **ainda não vejo nos dois o perfil que considero necessário para serem peças importantes de uma Seleção Brasileira que queira voltar a disputar uma Copa do Mundo para ganhar**.

Bruno Guimarães continua sendo uma peça importante e aparece como um dos nomes que podem dar sustentação ao setor. Mas ainda falta alguma coisa. Falta um jogador capaz de organizar, pensar o último passe, acelerar quando necessário e também controlar o ritmo da partida.

E chegamos a uma carência que considero ainda mais evidente: o camisa 10.

O futebol brasileiro está produzindo atacantes, pontas e jogadores extremamente velozes. Estêvão, Vinícius Júnior, Raphinha, Endrick, Rayan e João Pedro mostram que opções ofensivas não faltam. **Na frente, sinceramente, não vejo o maior problema da Seleção.**

O problema está justamente em quem vai fazer essa bola chegar aos atacantes.

MATHEUS PEREIRA FICOU DE FORA E A PERGUNTA PERMANECE

É nesse ponto que não consigo entender a ausência de Matheus Pereira. O meia do Cruzeiro vinha sendo colocado entre os nomes observados na pré-lista, mas acabou fora da relação definitiva.

Na minha opinião, pelo menos uma oportunidade deveria ter sido dada. Não estou dizendo que Matheus Pereira precisaria ser titular ou que deveria ser automaticamente o camisa 10 da Seleção. Estou falando de testar, observar, colocar o jogador no ambiente da equipe e descobrir se ele pode oferecer algo que atualmente não está tão claro no elenco.

Porque a Seleção precisa descobrir esse jogador.

Não podemos simplesmente aceitar que o camisa 10 desapareceu do futebol brasileiro sem tentar novas alternativas.

E Matheus Pereira tem justamente algumas características que considero importantes para esse processo: capacidade de passe, visão de jogo e possibilidade de atuar mais próximo dos atacantes. Ele viveu um bom momento no Cruzeiro e vinha sendo apontado como um nome que poderia entrar no radar da Seleção.

A convocação também apresenta uma contradição interessante. Ancelotti fala em observar jovens e construir a próxima geração, e é exatamente por isso que eu gostaria de ver experiências em posições nas quais ainda existem dúvidas.

Se o objetivo é encontrar soluções para 2030, precisamos testar jogadores que possam resolver problemas reais da equipe.

AS SURPRESAS E A NOVA GERAÇÃO

Entre os estreantes, Breno Bidon é um dos nomes que mais chamam atenção. O meio-campista do Corinthians ganhou espaço justamente em um setor que considero carente de alternativas, e sua convocação pode representar uma tentativa de Ancelotti de encontrar características diferentes para o meio-campo.

Gabriel Bontempo também aparece como uma das novidades mais interessantes. O jogador do Santos, de 21 anos, recebeu sua primeira oportunidade na equipe principal e chamou atenção pelo momento no futebol brasileiro. A convocação ainda tem um significado especial: Bontempo encerrou um jejum de 88 anos sem um jogador de Uberaba na Seleção.

No gol, Ancelotti tomou uma decisão bastante clara pela renovação. Hugo Souza, Pedro Morisco e Otávio foram os escolhidos, enquanto nomes experientes como Alisson, Ederson e Weverton ficaram fora. O treinador, entretanto, afirmou que a porta continua aberta e que a prioridade neste momento é acompanhar o desenvolvimento dos mais jovens.

Eu faria diferente nesse primeiro momento.

Não vejo problema algum em levar um goleiro jovem para observar. Pelo contrário. Mas considero que poderia haver espaço para um goleiro experiente justamente para ajudar esse processo de transição.

E aqui faço uma defesa clara de Weverton. O goleiro do Grêmio foi escolhido por Ancelotti para a Copa do Mundo justamente pela experiência, depois de o treinador e Taffarel entenderem que aquela competição exigia um jogador com rodagem.

Na minha avaliação, Weverton continua merecendo ser observado. E não estou falando apenas pela experiência. Estou falando pelo que ele vem apresentando em campo, inclusive em uma equipe do Grêmio que tem mostrado fragilidades defensivas. **É justamente em um time que oferece pouco conforto ao goleiro que um grande goleiro precisa aparecer.**

OUTRAS AUSÊNCIAS QUE MERECEM DISCUSSÃO

Também senti falta de Vanderson. Wesley foi convocado e considero justa a presença dele, porque é um jogador de qualidade e que pode ter espaço importante no novo ciclo.

Mas eu gostaria de ter visto Vanderson sendo observado. É um jogador que atua no futebol europeu, tem enfrentado adversários de alto nível e, na minha avaliação, merecia pelo menos entrar nesse processo de observação.

Não estou dizendo que Vanderson deveria ser titular da Seleção. **Estou dizendo que o novo ciclo deveria servir exatamente para isso: observar, testar e tirar dúvidas.**

A Seleção também precisa encontrar soluções para as laterais. A convocação de Wesley e a presença de outros jogadores mostram que Ancelotti está olhando para o setor, mas a busca por alternativas continua sendo uma questão importante para os próximos anos.

Por outro lado, se existe uma posição na qual o Brasil começa esse novo ciclo com enorme quantidade de opções, é o ataque.

Vinícius Júnior continua sendo referência. Raphinha permanece no grupo. Endrick está no projeto. Estêvão representa uma das grandes esperanças da nova geração. Rayan e João Pedro também foram chamados, enquanto Pedro e Samuel Lino representam outras alternativas. A lista deixa claro que Ancelotti não parece tão preocupado com a quantidade de opções ofensivas.

E concordo com essa leitura.

A Seleção Brasileira precisa encontrar equilíbrio entre renovação e experiência. O primeiro passo de Ancelotti foi dado, e não considero a convocação ruim. Pelo contrário: há boas escolhas e jogadores que merecem ser observados.

Mas também não acho que devamos tratar essa lista como se todos os problemas tivessem sido resolvidos.

O novo ciclo começou, mas **a procura pelo meio-campo ideal continua sendo, para mim, a principal missão de Carlo Ancelotti**.

E talvez os amistosos contra Austrália e Índia sejam exatamente o momento para começar a procurar essas respostas. O Brasil enfrenta a Austrália nos dias 25 e 29 de setembro, antes de encarar a Índia em 3 de outubro.

Que Ancelotti use esses jogos para testar. Que dê espaço aos jovens. Que observe quem pode realmente chegar a 2030. Mas que também tenha coragem para procurar aquilo que ainda não encontramos: um meio-campo capaz de controlar partidas e um camisa 10 capaz de fazer a Seleção jogar.

Porque talento para atacar nós temos.

**O que ainda precisamos descobrir é quem vai fazer o Brasil jogar.**

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