O retorno de Vitor Roque ao Palmeiras trouxe uma notícia positiva e outra que exige reflexão. Nos pouco mais de 15 minutos em campo contra o Santos, no empate de 0 a 0 na Vila Belmiro, o atacante conseguiu incomodar a defesa adversária, ofereceu uma alternativa de profundidade e apareceu na melhor oportunidade do segundo tempo. Diante de Diógenes, porém, não conseguiu converter a chance que poderia mudar o destino do clássic.
Há uma contradição interessante nessa participação. Vitor Roque mostrou por que sua presença faz falta ao Palestra, mas também deixou evidente o quanto o time precisa recuperá-lo para que essa presença volte a produzir o efeito esperado. Não se trata de cobrar de um jogador que retorna de lesão a solução imediata para os problemas ofensivos. Trata-se de reconhecer que a equipe precisa de um atacante capaz de ameaçar a última linha adversária com mais frequência.
A entrada de Vitor Roque incomodou a defesa santista justamente porque acrescentou uma característica importante: a capacidade de atacar o espaço e obrigar os zagueiros a reagir à movimentação. Em uma partida na qual a SEP encontrou dificuldades para transformar posse de bola em oportunidades claras, esse tipo de comportamento tem valor. É nesse ponto que considero importante observar a participação do atacante sem cair na tentação de transformar 15 minutos em um diagnóstico definitivo.
O Verdão não passou a dominar o jogo simplesmente porque Vitor Roque entrou, e seria exagero atribuir a ele uma transformação coletiva que não aconteceu, já que o erro de leitura de jogo de Abel aconteceu desde o primeiro tempo, ao insistir na formação com 3 volantes e três zagueiros, fato que travou o ataque e deu a Cuca reorganizar a estratéga santista, com sucesso até, já que o time praiano terminou melhor a primeira etapa e iniciou mais contundente a segunda.. Ainda assim, o camisa 9 ofereceu uma possibilidade diferente de ataque, algo que o time precisava encontrar diante de um Santos capaz de dificultar sua progressão.
A chance clara perdida e a paciência com o retorno
O problema apareceu no momento de maior exigência. Cara a cara com Diógenes, Vitor Roque teve a oportunidade mais clara da SEP na etapa final, mas o goleiro santista levou a melhor. A defesa foi decisiva para preservar o empate e também ajuda a dimensionar o peso da jogada: em um clássico de poucas oportunidades, a diferença entre sair da Vila Belmiro com um ponto ou com três pode estar concentrada em uma única finalização.
Não considero justo resumir sua atuação à chance perdida. A qualidade de uma participação não se mede apenas pelo resultado do último toque, sobretudo quando o jogador acaba de retornar de um problema físico. Mas também não vejo razão para contornar o fato mais importante: Vitor Roque teve a oportunidade de decidir e não decidiu. A análise precisa comportar as duas coisas, sem transformar a defesa de Diógenes em absolvição automática nem a finalização frustrada em condenação individual.
O retorno gradual, depois da entorse no tornozelo, exige cuidado na interpretação. Não há elementos suficientes para afirmar que a lesão prejudicou a execução da jogada ou que o atacante ainda esteja fisicamente limitado. O que se pode dizer é que recuperar ritmo competitivo envolve mais do que receber autorização para voltar a campo. É necessário reconstruir a sequência de minutos, a confiança nas ações e a regularidade que permite a um atacante transformar movimentações promissoras em produção ofensiva.
Recuperar o Tigrinho é vital para o Palmeiras
Para Abel Ferreira, essa recuperação ganha importância por uma razão que ultrapassa o nome do jogador. Quando o Alviverde tem dificuldade para encontrar espaços entre as linhas adversárias, contar com alguém que ameace a profundidade oferece outra possibilidade de construção. O defensor precisa recuar, a linha defensiva perde liberdade para avançar e os companheiros podem encontrar novos corredores.
Vitor Roque não resolve sozinho a circulação deficiente da equipe, mas pode ajudar a reduzir a previsibilidade de um ataque que, contra o Santos, demorou a encontrar caminhos. Haja visto, em sua coletiva de pós jogo, Abel até declarou que sentiu falta de Sosa, lesionado e cortado da partida. É justamente por isso que eu trataria a recuperação do Tigrinho como uma urgência esportiva.
Não no sentido de apressar seu retorno à titularidade a qualquer custo, mas de acelerar, dentro dos limites médicos e físicos, o processo que o devolva à condição de participar regularmente dos jogos. O Verdaço está em uma etapa decisiva da temporada, e a diferença entre ter Vitor Roque disponível por poucos minutos e contar com ele em condições de sustentar uma partida inteira pode ser relevante para o planejamento de Abel.
Empate frustrou, mas é preciso olhar para frente
O empate na Vila Belmiro deixou uma sensação incômoda porque o Palestra teve a possibilidade de vencer, mas não conseguiu aproveitar sua oportunidade mais clara no segundo tempo. Vitor Roque participou dessa frustração e, paradoxalmente, também ofereceu um motivo para olhar adiante. Sua entrada mostrou uma alternativa ofensiva; sua finalização defendida lembrou que essa alternativa ainda precisa recuperar consistência.
O saldo, portanto, não é o de um atacante que fracassou, tampouco o de um jogador que resolveu aparecer nos minutos finais. É o de um atleta que voltou, incomodou o adversário e teve a vitória nos pés, mas ainda precisa transformar potencial em regularidade. Na reta decisiva da temporada, a SEP não pode depender de lampejos isolados. Precisa recuperar Vitor Roque para que a ameaça que ele apresentou na Vila Belmiro deixe de ser episódica e passe a integrar, com frequência, o repertório ofensivo da equipe.





