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Direto da Redação

Opinião: Abel controla os demônios, enquanto o Palmeiras precisa controlar a própria bola

O microfone sobreviveu, e isso já é uma evolução, mas o Verdão ainda precisa evitar que as partidas escapem pelo caminho

Abel em ação durante jogo do Verdão - Foto: Luiz Erbes/AGIF
© Luiz Erbes/AGIFAbel em ação durante jogo do Verdão - Foto: Luiz Erbes/AGIF

Confesso que gostei da imagem criada por Abel Ferreira depois do empate sem gols com o Botafogo. Não pelo empate, naturalmente, já que as suas consequências deixaram a tabela preocupante. Empate do Palmeiras virou quase reunião de condomínio: todo mundo tem algo a reclamar, mas gostei foi da sinceridade involuntariamente teatral do treinador ao dizer que tinha conseguido controlar os “demônios” que carrega dentro de si.

Os demônios, aparentemente, estavam bem posicionados à beira do campo. Tinham até três microfones como companhia. Segundo Abel, eles estavam praticamente convocados para assistir aos erros da arbitragem e, quem sabe, oferecer uma nova oportunidade de chute. Na rodada anterior, um desses equipamentos havia levado a pior contra o Mirassol e o episódio terminou em julgamento, suspensão e efeito suspensivo. Desta vez, o microfone sobreviveu. O futebol, nem tanto.

Há algo quase engraçado nessa história, porque Abel passou de protagonista de um episódio com microfone para uma espécie de fiscal da distribuição de microfones. Questionou por que há equipamentos tão próximos do banco, perguntou se estamos no “Big Brother” e comparou a situação com competições europeias. O homem, convenhamos, não deixou o assunto morrer. Pelo visto, microfone perto do banco virou quase um novo adversário do Abel.

“Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”, como diria Roberto Avallone

Mas existe uma questão mais interessante por trás da cena e das brincadeiras à parte. Abel tem razão quando pede critérios coerentes. Ele também tem razão ao defender sua personalidade competitiva. O problema é que personalidade não pode ser confundida com destempero. Ser intenso é uma característica. Chutar microfone é comportamento. Reclamar da arbitragem é compreensível. Transformar a reclamação em uma pauta permanente já é outra coisa.

E talvez seja justamente aí que esteja a ironia e também o problema. Abel conseguiu controlar os demônios no Nilton Santos. Palmas para ele. O próximo passo seria ensinar o Palmeiras a controlar os próprios demônios dentro de campo. Porque o time teve 63% de posse, finalizou 17 vezes contra 13 do Botafogo e passou boa parte da partida com a bola. Só que posse de bola não paga aluguel, finalização não entra automaticamente na súmula e domínio territorial não significa domínio do jogo.

O Palmeiras teve a bola, mas não teve o jogo inteiro. E essa diferença parece pequena até olharmos para a tabela. O time chegou a abrir vantagem confortável na liderança e sustentou a ponta por meses. Agora, depois de uma sequência de tropeços, perdeu o primeiro lugar para o Flamengo por um ponto. O problema, portanto, não é ter empatado no Rio. O problema é que o empate começa a parecer menos um acidente e mais um sintoma de uma equipe que está encontrando dificuldades para transformar volume em controle, controle em chances claras e chances em gols.

De olho no controle que importa

É curioso porque Abel passou boa parte da coletiva falando sobre controle. Controle dos demônios. Controle dos critérios. Controle da arbitragem. Controle dos microfones. E eu fiquei pensando que talvez essa palavra seja justamente a mais importante para o Palestra neste momento. Não o controle emocional do treinador, embora ele seja importante. O controle do jogo. A capacidade de fazer o adversário jogar aquilo que o Palmeiras quer, sem depender de uma bola espirrada, de uma individualidade ou de uma sequência de acontecimentos favoráveis.

Não acho que Abel tenha virado o problema do Palmeiras. Longe disso. Também não acho que toda reclamação sua de arbitragem seja uma tentativa de esconder deficiência. Seria preguiçoso escrever assim. Mas também seria confortável demais fingir que os problemas desaparecem porque o treinador tem argumentos para reclamar deles. A SEP pode discutir os microfones, o STJD, os cartões e os critérios. Precisa, ao mesmo tempo, discutir por que um time que teve 17 finalizações contra um adversário em má fase terminou novamente sem fazer gol.

Talvez os “demônios” de Abel sejam até mais organizados do que os do Palmeiras. Os dele ficam à beira do campo, reclamam da arbitragem, implicam com microfones e, de vez em quando, precisam ser contidos antes que alguém termine chutado para longe. Os do time são mais discretos. Aparecem quando a posse não vira perigo, quando a pressão não vira gol, quando a vantagem escorre pelos dedos e quando um jogo que parecia controlado termina com aquela velha sensação de que faltou alguma coisa.

Abel se controlou, agora falta o Verdão

Abel, desta vez, conseguiu controlar os seus. O microfone permaneceu no lugar, o treinador permaneceu no banco e os demônios, ao menos naquela noite, voltaram para casa sem protagonizar outra ocorrência. É uma evolução. Mas o Maior Campeão do Brasil não pode se contentar com esse tipo de vitória moral, porque campeonato não distribui ponto por bom comportamento à beira do campo.

No futebol, há controles que não aparecem na súmula. Controlar a irritação é um deles. Controlar a narrativa também. Mas o mais importante continua sendo controlar o jogo. E esse é o detalhe que talvez Abel e seus jogadores precisem discutir com mais atenção: enquanto o treinador aprende a não chutar o que está ao seu redor, o Palmeiras precisa aprender a não deixar escapar aquilo que está sob seus pés.

Porque, no fim, microfone pode até provocar Abel. Arbitragem pode provocá-lo. O adversário pode provocar o treinador já consagrado como um vencedor. Mas, se o Palmeiras voltar a controlar as partidas como já controlou em tantos momentos desta temporada, talvez nem os demônios encontrem muito espaço para trabalhar.

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