O empate por 0 a 0 com o Santos, na última quarta-feira (28), na Vila Belmiro, deixou um alerta para o Palmeiras na reta decisiva da temporada. Mais do que os dois pontos perdidos na disputa pelo Campeonato Brasileiro, o resultado reforçou uma discussão importante sobre as escolhas de Abel Ferreira: até que ponto o pragmatismo do treinador está protegendo a equipe e em que momento essa cautela começa a limitar seu potencial ofensivo?
O Palmeiras segue vivo em três competições, mas enfrenta uma sequência de decisões que pode definir o balanço de toda a temporada. No Brasileirão, a equipe corre o risco de ver o Flamengo ampliar a vantagem na liderança nesta quinta (29), se vencer o Vasco. Na Copa do Brasil, terá o próprio Cruz-Maltino pela frente na semifinal, enquanto a Libertadores representa outra oportunidade de conquistar um título de grande peso.
Nesse cenário, Abel precisa avaliar se a formação com três zagueiros e três volantes deve continuar sendo a principal escolha ou se chegou a hora de oferecer mais liberdade aos jogadores de ataque. A questão não é abandonar a segurança defensiva que ajudou o Palmeiras a atravessar momentos difíceis, mas evitar que a proteção excessiva comprometa a capacidade de construir vitórias.
Outro ponto que merece atenção é a demora do treinador para mexer na equipe durante o clássico contra o Santos. As substituições só começaram a ganhar espaço praticamente aos 20 minutos do segundo tempo, quando Maurício, Vitor Roque, Felipe Anderson e Larson foram acionados. Em uma partida na qual o Palmeiras precisava encontrar soluções para furar a defesa adversária, as mudanças poderiam ter acontecido antes, oferecendo mais tempo para os jogadores influenciarem o resultado.
A questão não é apenas o momento das substituições, mas o que essa demora representa dentro de um contexto maior: a dificuldade de Abel em abrir mão de uma estrutura mais conservadora mesmo quando o time demonstra precisar de alternativas ofensivas. A convicção do treinador, tão importante para sustentar seu trabalho, pode se transformar em teimosia quando impede uma reação mais rápida às necessidades da partida.
Três zagueiros e três volantes: segurança que pode limitar o ataque
A utilização de três zagueiros e três volantes ganhou força em um momento específico da temporada, quando Vitor Roque sofreu uma lesão no tornozelo e precisou deixar a equipe. Sem o atacante, Abel encontrou no reforço da estrutura defensiva uma maneira de reorganizar o time, proteger a defesa e manter o equilíbrio em jogos de alta exigência.
A estratégia apresentou resultados positivos em determinadas circunstâncias. O problema aparece quando uma solução pensada para um contexto específico passa a ser utilizada mesmo quando o elenco oferece alternativas para uma abordagem mais ofensiva.
Com tantos jogadores dedicados à proteção e à ocupação do meio-campo, o Palmeiras perde presença entre as linhas adversárias, velocidade nas transições e capacidade de criar situações de superioridade no ataque. A equipe corre o risco de depender de contra-ataques isolados, cruzamentos ou de uma jogada individual para decidir partidas nas quais precisa assumir o protagonismo.
O empate diante do Santos reforçou essa preocupação. Em um confronto no qual os três pontos eram importantes para a perseguição ao Flamengo, faltou ao Palmeiras transformar sua organização em volume ofensivo suficiente para buscar a vitória.
Contra Bahia, Corinthians e Bragantino, o Palmeiras mostrou outras possibilidades
Há exemplos recentes que sustentam a discussão sobre a necessidade de diversificar o modelo de jogo. Em partidas do Campeonato Brasileiro contra Bahia, Corinthians e Red Bull Bragantino, Abel utilizou alternativas com maior presença de jogadores ofensivos e mais profundidade.
Na goleada por 4 a 1 sobre o Corinthians, o Palmeiras mostrou capacidade de acelerar as jogadas e aproveitar os espaços com uma formação que oferecia mais opções na frente. Contra o Bragantino, a presença de Maurício, Ramón Sosa e Jhon Arias também representou uma alternativa para aumentar a mobilidade e a capacidade de criação do setor ofensivo.
Esses resultados não provam que uma formação mais ofensiva será sempre superior. Cada adversário apresenta características próprias, e o contexto de uma partida influencia diretamente as decisões de um treinador. Ainda assim, mostram que o elenco palmeirense tem recursos para atuar de maneira mais agressiva sem necessariamente abrir mão de toda a segurança defensiva.
O desafio de Abel é justamente encontrar esse equilíbrio. Em vez de escolher entre atacar e defender, o Palmeiras precisa construir uma estrutura que permita fazer as duas coisas com eficiência.
Andreas Pereira e Marlon Freitas entram na discussão
A composição do meio-campo é um dos pontos centrais dessa análise. Andreas Pereira e Marlon Freitas são jogadores com características importantes para a equipe, mas a utilização simultânea de três volantes pode reduzir o espaço disponível para atletas que oferecem maior capacidade de infiltração e criação.
Contra o Santos, Andreas teve uma atuação apagada e encontrou dificuldades para influenciar o jogo. Isso não significa que o meio-campista deva perder espaço de maneira definitiva, mas indica que Abel precisa avaliar como suas características se encaixam no modelo adotado.
Uma possibilidade seria manter dois volantes e acrescentar um jogador de maior mobilidade ao setor ofensivo, como Maurício ou Ramón Sosa. Dependendo do adversário e do momento da partida, Abel poderia preservar Andreas ou Marlon, em vez de escalar os dois obrigatoriamente ao lado de um terceiro meio-campista.
Outra alternativa seria modificar a estrutura defensiva e utilizar dois zagueiros, aumentando o número de jogadores disponíveis para construir as jogadas. Essa mudança, porém, exigiria ajustes na cobertura dos laterais e na proteção à área.
A discussão não deve se limitar a nomes individuais. O ponto principal é oferecer ao time uma distribuição de funções que aproveite melhor as características do elenco.
Com Vitor Roque de volta, Abel tem mais opções ofensivas
O retorno de Vitor Roque amplia as possibilidades de Abel Ferreira. O atacante oferece mobilidade, profundidade e capacidade de atacar os espaços, características que podem ajudar o Palmeiras a sair de uma postura excessivamente reativa.
Uma formação com Jhon Arias, Vitor Roque e Flaco López permitiria combinar criatividade, velocidade e presença na área. Maurício também aparece como alternativa para aumentar a movimentação entre as linhas e aproximar o meio-campo do ataque.
Com essas opções, o Palmeiras poderia manter a estrutura de três zagueiros, caso Abel considere essa formação necessária, mas acrescentar um jogador ofensivo. Dessa forma, o time preservaria uma base defensiva com três homens e ganharia mais recursos para pressionar o adversário.
A questão é especialmente importante quando o Palmeiras enfrenta equipes que concedem pouco espaço e obrigam o Verdão a assumir a iniciativa. Nessas partidas, ter mais jogadores capazes de criar, infiltrar e finalizar pode ser decisivo.
Abel não precisa abandonar suas convicções, mas precisa evitar que elas se transformem em limitações. A flexibilidade tática é uma ferramenta importante para um treinador que pretende disputar títulos em diferentes competições.
Pragmatismo pode custar caro na reta final
A preocupação vai além do empate na Vila Belmiro. O Palmeiras está em um momento da temporada no qual qualquer sequência negativa pode comprometer objetivos importantes.
No Campeonato Brasileiro, o Flamengo pode ampliar sua vantagem dependendo do resultado contra o Vasco. A equipe alviverde precisa continuar somando pontos e não pode tratar os próximos compromissos como oportunidades para apenas evitar derrotas.
Na Copa do Brasil, o confronto com o Vasco exige capacidade de adaptação a dois jogos de mata-mata. Na Libertadores, a final contra o Estudiantes também promete um duelo de alta intensidade, diante de um adversário conhecido pela competitividade e pela organização.
Em partidas desse porte, a segurança defensiva é indispensável, mas a capacidade de reagir a diferentes cenários também pesa. Se o Palmeiras sofrer um gol, precisar reverter um placar ou encontrar um adversário muito fechado, terá de apresentar alternativas para sair da situação.
Insistir em um modelo que privilegia excessivamente a proteção pode limitar essas respostas. O risco não está em jogar com três zagueiros ou três volantes por si só, mas em não reconhecer quando a partida exige outra abordagem.
O pragmatismo que ajuda a controlar determinados jogos pode se tornar um problema quando impede o time de assumir riscos calculados para buscar a vitória.





