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Seleção Brasileira

Opinião: Uma revolução para Ancelotti: Pedro mostra que é preciso inverter a lógica excludente da Seleção

Ancelotti não precisa fechar os olhos para o talento que atua na Europa. Mas talvez precise mudar o ponto de partida para encontrar quem merece vestir a camisa

Ancelotti precisa mudar o padrão das convocações da Seleção - (Photo by Chung Sung-Jun/Getty Images)
© Getty ImagesAncelotti precisa mudar o padrão das convocações da Seleção - (Photo by Chung Sung-Jun/Getty Images)

Assisti a exuberante atuação de Pedro contra o Cruzeiro e fiquei com uma pergunta que vai muito além das duas assistências, da classificação do Flamengo às quartas de final da Libertadores ou mesmo da ausência dele na Copa do Mundo: por que o futebol brasileiro parece precisar implorar para que seus melhores jogadores sejam vistos pela Seleção Brasileira? Pedro não fez apenas uma grande partida. Ele colocou em campo, diante de um jogo decisivo, uma discussão que precisamos ter coragem de enfrentar.

Minha proposta é simples, embora talvez pareça revolucionária: Carlo Ancelotti deveria inverter a lógica das convocações. Não estou defendendo que a Seleção feche as portas para a Europa ou ignore jogadores extraordinários simplesmente porque eles atuam fora do país. Vini Júnior, por exemplo, não precisa disputar espaço com um CEP brasileiro. Craques são exceções porque são, justamente, craques. O problema é transformar a grife do futebol europeu em critério automático de superioridade.

A provocação não nasceu apenas de Pedro. Meu companheiro de Bolavip Brasil, Romário Jr., levantou discussão semelhante ao abordar sobre Gabigol, afirmando que o desempenho atual do jogador o credencia a recolocá-lo no radar da Seleção. E aqui está o ponto que considero mais importante: não se trata de convocar Pedro ou Gabigol por jogarem no Flamengo ou no Santos. Trata-se de discutir por que jogar bem, decidir e suportar a pressão do futebol brasileiro tantas vezes parece valer menos do que simplesmente pertencer ao mercado europeu.

Exemplos no Tetra e no Penta, mesmo com realidades distintas

Olhemos para 1994. A Seleção de Parreira tinha Romário e Bebeto brilhando na Europa, mas também levou Zetti, Gilmar, Cafu, Leonardo, Ricardo Rocha, Branco, Zinho, Mazinho, Müller, Ronaldo e Viola, todos atuando no futebol brasileiro. O tetracampeonato não nasceu de uma escolha entre Brasil e Europa. Nasceu de uma Seleção que conseguia enxergar os dois mundos e não tratava o Campeonato Brasileiro como uma espécie de categoria inferior da qual o jogador precisava escapar para se tornar internacionalmente relevante.

Em 2002, isso ficou ainda mais evidente. Marcos, Dida e Rogério Ceni formavam uma trinca inteira de goleiros do Brasil. Belletti, Anderson Polga, Gilberto Silva, Kaká, Kléberson, Ricardinho, Vampeta, Juninho Paulista, Edílson e Luizão também estavam aqui. Kléberson, inclusive, chegou à Seleção após se destacar no título brasileiro do Athletico-PR e terminou a Copa como titular. A Europa tinha Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e outros gigantes, mas Felipão não precisou fingir que o talento brasileiro deixava de existir enquanto permanecesse empregado por um clube brasileiro.

O caos de 90 flerta com a Seleção de Ancelotti

Talvez essa seja uma das consequências que aprendemos depois do trauma de 1990. Aquele ciclo terminou em eliminação precoce, críticas intensas e uma sensação de distanciamento entre a Seleção e o país que ela deveria representar. O futebol mudou, os jogadores passaram a circular cada vez mais cedo pelo mundo e não existe retorno possível a uma época que já acabou. Mas uma coisa não deveria ter desaparecido: a necessidade de o torcedor reconhecer a Seleção como extensão do futebol que ele acompanha todos os domingos.

E é por isso que eu inverteria o processo. Em vez de começar a convocação perguntando quem joga nos maiores campeonatos da Europa e, depois, procurar um ou outro nome no Brasil, Ancelotti deveria observar profundamente o que acontece aqui e perguntar: quem está jogando futebol suficiente para não poder ficar de fora? Pedro é um caso evidente neste momento. Mas a discussão pode alcançar jogadores como Fábio, que segue atuando em alto nível aos 45 anos, ou qualquer outro atleta que entregue desempenho consistente, independentemente da vitrine internacional que carregue.

Mudança radical, mas com inteligência e bom senso

Isso não significa transformar a Seleção em prêmio de consolação para quem não foi vendido à Europa. Pelo contrário. Significa devolver peso ao desempenho real. O atacante que decide Libertadores, o meia que domina o Brasileirão, o goleiro que sustenta campanhas e o defensor que enfrenta pressão semanalmente precisam começar a corrida pela convocação no mesmo ponto — e não vários metros atrás de alguém que recebeu o carimbo de qualidade apenas por atravessar o Atlântico.

Pedro, contra o Cruzeiro, não resolveu sozinho um problema histórico da Seleção. Mas talvez tenha feito algo igualmente importante: nos obrigou a olhar de novo. Minha revolução seria essa. Não banir a Europa, nem romantizar o futebol brasileiro. Apenas acabar com a hierarquia automática que nos faz procurar o talento lá fora antes mesmo de perguntar se ele já está brilhando diante dos nossos olhos. Se a Seleção Brasileira quer recuperar sua conexão com o brasileiro, talvez precise, antes de tudo, de uma mudança radical em seus conceitos e convicções, que já se mostram ineficazes .

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