Neymar consegue provocar uma discussão que vai muito além daquilo que faz com a bola. Seu desempenho tático frequentemente é questionado pela participação sem posse, pela intensidade e pelo espaço que precisa para exercer sua liberdade. Enfrentar o Neymar quando ele consegue encontrar o jogo vira uma preocupação extra. E o Palmeiras recebeu um alerta justamente no clássico contra o Corinthians: o camisa 10 foi muito bem, participou diretamente da vitória do Santos e chega à Vila Belmiro novamente como uma ameaça que Abel Ferreira não pode tratar de maneira convencional.
O detalhe é que não acredito que a solução esteja em escolher um jogador para perseguir Neymar. Isso seria exatamente o que o Santos poderia desejar. Se ele sair da esquerda para o centro, por exemplo, e Piquerez abandonar sua faixa para acompanhá-lo, o espaço nas costas ou no corredor pode aparecer.
Se um zagueiro como Gómez sair da linha para encurtar e não houver cobertura, o problema pode ficar ainda maior. Neymar não precisa vencer todos os duelos para ser decisivo, basta conseguir arrastar a estrutura adversária para um lugar onde ela não deveria estar.
Por isso, a primeira regra que eu imagino para Abel seria bastante simples: Neymar não pode receber de frente para a defesa. O Verdão precisaria controlar principalmente a região entre meio-campo e última linha, dificultando o passe que encontra o camisa 10 já preparado para girar.
Nesse cenário, um jogador como Marlon Freitas ganha importância. Mais do que correr atrás de Neymar, ele poderia funcionar como uma referência de proteção central, fechando o espaço por dentro e encurtando quando o santista aparecesse naquela zona.
Como anular Neymar?
Isso não significa, porém, entregar Neymar completamente aos volantes. É justamente aí que a coordenação defensiva seria colocada à prova. Se Neymar cair para o lado, o lateral não deveria necessariamente acompanhá-lo até o fim. Piquerez, por exemplo, precisaria entender quando encurtar e quando preservar a própria posição. A ideia seria fazer Neymar trocar de zona sem permitir que ele leve consigo dois jogadores. Parece um detalhe, mas é exatamente nesses pequenos deslocamentos que ele pode desequilibrar.
Existe ainda Gustavo Gómez, que pode exercer uma função importante justamente por aquilo que representa dentro da defesa Palestrina: liderança e leitura para decidir quando sair da linha. Se Neymar receber entre as linhas, o capitão pode ser o jogador encarregado de encurtar em determinados momentos, mas somente quando houver cobertura. O erro seria transformar cada recepção do camisa 10 em uma emergência. Uma defesa madura não corre atrás do problema, ela controla o espaço onde o problema pode nascer.

Andreas Pereira também entra nesse contexto. Não necessariamente como um marcador, mas como um jogador capaz de ajudar o Verdão a transformar recuperação de bola em resposta rápida. Afinal, existe uma maneira ainda melhor de defender Neymar: não permitir que o Santos permaneça instalado no campo de ataque durante muito tempo. Se o Palmeiras recuperar a bola e conectar rapidamente para o campo ofensivo, o medalhão santista terá menos oportunidades para receber e organizar a pressão adversária.
Esse ponto ganha ainda mais peso porque o Santos chega embalado pela vitória sobre o Corinthians, justamente em uma partida na qual Neymar voltou a mostrar capacidade de interferir no jogo. E isso muda a leitura do confronto. O Palmeiras venceu o primeiro duelo por 3 a 0 e tem uma vantagem enorme, mas não pode confundir vantagem com acomodação. O Santos precisa atacar, e a presença de Neymar aumenta a capacidade de transformar pressão em oportunidades.
Uma marcação por camadas para barrar o camisa 10 rival
Por isso, acredito que Abel deveria pensar em uma espécie de marcação por camadas. Marlon Freitas protege o centro, Piquerez controla o corredor quando Neymar se aproxima do lado, Gómez administra a profundidade e os demais jogadores fecham as linhas de passe que poderiam devolver a bola ao camisa 10. É uma tentativa de fazer Neymar receber sempre um segundo depois, um metro mais longe ou de costas para o gol.
Há uma ironia interessante nessa história. Quanto mais o Palmeiras se preocupar exclusivamente com Neymar, maior será a chance de o Santos encontrar justamente os espaços que precisa para tentar uma reação improvável. Ele não precisa ser o autor de todos os lances perigosos. Se ele atrair a atenção de dois jogadores e liberar um corredor para outro companheiro, já terá cumprido uma função decisiva. Por isso, é preciso marcar Neymar sem esquecer que está enfrentando o Santos. Parece óbvio, mas é um alerta importante.
A missão é manter a identidade tática e controlar os passos de Neymar
A questão que Abel terá diante de si na Vila não é simplesmente quem vai marcar Neymar. A pergunta realmente importante é como impedir que Neymar determine onde o Palmeiras vai defender. O camisa 10 pode até ter liberdade para circular, mas não deveria ter liberdade para escolher onde receber, girar e acelerar. Se o Verdão conseguir controlar essas zonas sem abandonar sua própria identidade, terá encontrado a melhor resposta para um jogador que voltou a dar sinais de que ainda pode transformar uma partida. A vantagem de 3 a 0 permite ao Palmeiras jogar com inteligência; o desafio será mostrar que inteligência também significa saber exatamente onde não deixar Neymar jogar.
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