O Palmeiras construiu uma reputação que ultrapassa a capacidade de contratar jogadores. A Academia de Futebol se tornou uma espécie de patrimônio esportivo, capaz de produzir talentos, abastecer o elenco profissional e, em determinados momentos, movimentar o mercado internacional. O curioso é que, enquanto o clube continua formando jogadores com potencial de protagonismo, Abel Ferreira precisa procurar alternativas para manter a competitividade de uma equipe pressionada por desfalques e calendário. As duas circunstâncias começam a se encontrar.
Nesta terça-feira (3), uma declaração de João Paulo Sampaio, coordenador das categorias de base, veio à tona e colocou novamente a formação palmeirense em evidência. Em entrevista ao podcast Um Assado Para…, o dirigente apontou três jovens que, na sua avaliação, têm condições de alcançar a Seleção Brasileira principal: Niakson, Eduardo Conceição e João França. Sampaio foi bastante enfático ao projetar o futuro dos garotos: “Esses três aí vão pegar Seleção principal, não tenha dúvida”.
Entre os nomes citados, Niakson chama atenção pela função que desempenha. Volante de 17 anos, o jogador foi elogiado pela capacidade de resolver problemas durante as partidas. Sampaio encontrou até uma maneira bem-humorada de explicar sua avaliação: “Resolve dor de cabeça, problema, toda hora”. O garoto, nascido em 2009, entretanto, está em recuperação de uma lesão e ficou fora da convocação para o Mundial Sub-17. Seu desenvolvimento, portanto, exige paciência, mesmo diante de uma projeção tão positiva.
Eduardo Conceição representa outro estágio dessa caminhada. Aos 16 anos, o meia-atacante já participou de atividades e jogos com o elenco profissional, além de treinar frequentemente sob o acompanhamento de Abel. Os números também ajudam a dimensionar sua evolução: são cinco gols e três assistências pelo sub-20 na temporada, além de participações importantes pela Seleção Brasileira. João França, por sua vez, aparece como um atacante canhoto de características individuais que chamaram a atenção do coordenador. “Canhoto estilo Estêvão”, resumiu Sampaio, ao destacar o drible e a capacidade de desequilibrar do jovem, autor de dez gols em 26 partidas em 2026.
Integração da base com o profissional já é uma realidade no Palmeiras
A declaração do dirigente ganha importância quando observada ao lado do que acontece no futebol profissional. O Palestra já vê algumas crias atravessarem a porta que separa a formação da equipe principal. Erick Belé e Larson são exemplos dessa aproximação. O primeiro voltou a receber oportunidade diante do Vasco, no domingo (30), enquanto o segundo já havia sido utilizado recentemente. São movimentos diferentes dentro de um mesmo processo: permitir que os jovens conheçam as exigências do ambiente profissional antes de receberem responsabilidades maiores.
Abel, aliás, não escondeu que as oportunidades também estão relacionadas às circunstâncias do elenco. Depois da vitória sobre o Vasco, o treinador explicou a utilização dos garotos: “Quando olhamos para o banco, em função das lesões que temos, precisamos dar oportunidades aos meninos em quem acreditamos e que trabalham conosco. Como foi o Larson no último jogo e como foi hoje o Erick Belé”. A declaração tem uma sinceridade importante, pois escancara que a necessidade abre a porta, mas a confiança construída nos treinamentos permite que alguém atravesse.

Larson em ação no duelo contra o Santos, Vila Belmiro pelo campeonato Brasileiro A 2026. Foto: Marcello Zambrana/AGIF
O treinador também reconheceu que a quantidade de alternativas diminuiu justamente quando a temporada exige mais do Verdão. Paulinho e Ramón Sosa estão fora, enquanto a administração física dos jogadores disponíveis se tornou uma tarefa delicada. Nesse cenário, Abel voltou a citar Belé e Larson como opções nas quais acredita. Trata-se de uma resposta às circunstâncias, mas também uma oportunidade para observar o que a formação do clube consegue oferecer quando o elenco principal precisa de ajuda.
Erick Belé, de 19 anos, já percorreu parte desse caminho. O meia-atacante estreou entre os profissionais em 2025, marcou seu primeiro gol pela equipe principal contra o Jacuipense, em maio, e vem alternando sua rotina entre o grupo de Abel e as categorias inferiores. Larson, por sua vez, também passou a integrar o ambiente profissional depois de chamar a atenção da comissão técnica. Nenhum dos dois precisa ser apresentado como solução definitiva para os problemas do time. A importância está em outro ponto: o Verdaço começa a testar, em situações reais, jogadores que conhece há bastante tempo.
Diferentes gerações, distintos olhares
É justamente aí que as declarações de JP Sampaio encontram uma dimensão maior. Niakson, Eduardo Conceição e João França representam uma geração que ainda precisa amadurecer, enquanto Belé e Larson já experimentam as exigências do futebol profissional. Há uma diferença considerável entre projetar um jogador para a Seleção e colocá-lo em condições de disputar espaço em uma equipe que briga por títulos. A formação não termina quando o atleta recebe uma oportunidade, assim como a confiança do treinador não elimina a necessidade de evolução.
O Palmeiras também precisa entender que revelar talentos e aproveitá-los são etapas distintas de um mesmo projeto. O clube já demonstrou capacidade de formar jogadores que despertam interesse internacional e movimentam cifras expressivas. Eduardo Conceição, por exemplo, já aparece no radar de grandes equipes europeias. Mas a valorização de uma promessa não deveria ser medida apenas pela quantidade de clubes interessados ou pelo tamanho de uma eventual negociação. Existe um patrimônio esportivo que também precisa ser considerado: aquilo que esses jogadores podem entregar dentro de campo antes de qualquer despedida.
Era de ouro no Palestra
A Academia de Futebol vive um momento promissor. De um lado, JP Sampaio apresenta nomes nos quais deposita enorme confiança; de outro, Abel começa a recorrer a jogadores mais jovens para enfrentar as limitações do elenco. O desafio será transformar essa aproximação em continuidade, sem acelerar etapas e sem confundir necessidade com preparação.
A SEP não precisa encontrar um novo Estêvão a cada temporada, tampouco esperar que toda promessa resolva imediatamente os problemas do profissional. Precisa fazer com que o caminho entre a base e o time principal seja cada vez menos uma exceção. Afinal, formar grandes jogadores é uma virtude. Conseguir aproveitá-los também é uma forma de grandeza.





