Abel Ferreira parece ter chegado a uma conclusão que demorou alguns anos para admitir: transformar a arbitragem em um adversário público não trouxe os resultados que esperava. Depois da vitória do Palmeiras sobre o Vasco, na primeira partida da semifinal da Copa do Brasil, o treinador fez um desabafo que ultrapassou a discussão sobre os lances da partida. Mais do que prometer que não voltará a comentar decisões dos árbitros, reconheceu que a postura adotada ao longo de sua passagem pelo futebol brasileiro acabou prejudicando sua própria imagem.
A mudança de discurso chama atenção justamente pelo histórico de confrontos do português com a arbitragem. Expulsões, reclamações à beira do campo e manifestações contundentes depois das partidas fizeram parte de uma relação marcada pelo desgaste. Desta vez, entretanto, Abel demonstrou menos disposição para prolongar o enfrentamento. “A conclusão que cheguei, infelizmente, depois de seis ou sete anos, com a experiência que tenho e deveria ter aprendido mais rápido, é bater em ponta de faca”, declarou.
A resposta surgiu quando o treinador foi questionado sobre a reclamação do Vasco por um possível pênalti de Barboza, após toque de mão na área. Abel evitou entrar diretamente no mérito da jogada e procurou deslocar a discussão para outro lance. “Poderia me perguntar sobre o Lucas (Evangelista) que levou o braço na cara”, afirmou. Na sequência, ironizou a repercussão das decisões: “Vou deixar para vocês criarem conteúdos, vocês precisam de cliques”, disparou o treinador, em mais uma de suas alfinetadas na imprensa.
O episódio, porém, não se resume à tentativa do treinador de encerrar o assunto. O lance envolvendo Barboza gerou questionamentos, e o comentarista de arbitragem PC Oliveira considerou que houve penalidade não assinalada. A avaliação reforça que a discussão tinha um elemento concreto, independentemente da disposição de Abel para comentá-la. O silêncio anunciado pelo português, portanto, não representa o desaparecimento das controvérsias, mas uma mudança na maneira como pretende reagir a elas.
A contradição que o temperamento de Abel gerou
O trecho mais revelador da coletiva apareceu quando Abel relacionou suas manifestações aos prejuízos acumulados fora das quatro linhas. “Só me prejudiquei a defender o Palmeiras. Minha imagem, meu nome”, afirmou. A declaração carrega uma contradição importante: ao tentar proteger os interesses do clube diante de decisões que considerava injustas, o treinador também passou a alimentar uma imagem pública frequentemente associada às reclamações e aos confrontos com a arbitragem.

Abel protesta no duelo contra o Vasco e a arbitragem cresce o olho no Nubank Parque – (Foto: Cesar Greco/Palmeiras/by Canon)
A questão está na eficácia dessa estratégia. Quando a reclamação se torna recorrente, existe o risco de a discussão deixar de girar em torno do lance e passar a se concentrar no comportamento de quem protesta. Abel parece reconhecer isso. A defesa do Palestra, que deveria estar no centro de suas manifestações, acabou dividindo espaço com um desgaste pessoal que o próprio português admite não ter conseguido evitar.
O treinador também fez uma autocrítica. “Meu espírito competitivo e às vezes a injustiça que estou a ver faz com que tenha comportamentos que não condizem com meu lugar”, reconheceu. A fala é relevante porque não transfere integralmente a responsabilidade para os árbitros. Trata-se de uma percepção diferente das manifestações em que o foco estava exclusivamente nas decisões tomadas em campo.
Treinador alertou sobre a organização da arbitragem
O histórico com o STJD também apareceu no desabafo. Abel questionou a proporcionalidade de punições recebidas e demonstrou incômodo com a maneira como alguns processos foram conduzidos. “Nunca tinha levado seis ou sete, nunca no futebol brasileiro. Alguém falou ou estão à espera de usar Abel como Cristo?”, provocou. A declaração revela a sensação de tratamento desigual que acompanha sua relação com a arbitragem e a disciplina esportiva.
Há, ainda, uma mudança de abordagem na parte final da coletiva. Depois de reconhecer os próprios excessos, Abel direcionou a discussão para as condições de trabalho dos árbitros. “Os erros vão acontecer sempre, seja expulsões ou não, tenho que acreditar que os erros que acontecem são porque todos nós cometemos”, afirmou. Em seguida, defendeu que os profissionais tenham melhores condições e que exista um número maior de árbitros para permitir um rodízio mais amplo nas escalas.
A crítica, assim, deixou de estar restrita às decisões individuais e alcançou a organização da arbitragem brasileira. Esse ponto oferece uma dimensão mais interessante ao desabafo. Abel parece tentar separar questões que, durante muito tempo, apareceram misturadas em suas manifestações: a contestação de um lance, o comportamento à beira do campo e a estrutura responsável por organizar a arbitragem.
Será que o treinador do Palmeiras vai mudar mesmo?
A promessa de não falar mais dos árbitros pode ser o reconhecimento de que o confronto permanente não produziu o efeito desejado e ainda desviou parte da atenção de sua função como comandante do Verdaço. Resta saber se a mudança resistirá aos próximos episódios controversos, especialmente em um futebol no qual decisões de arbitragem frequentemente ocupam o centro do debate. Abel não está abrindo mão de cobrar justiça. Está admitindo que precisa encontrar outra maneira de fazê-lo.





