A pressão sobre Abel Ferreira no Palmeiras existe e seria errado fingir que não existe. O torcedor palmeirense se acostumou a ganhar, a disputar títulos e a enxergar o time constantemente entre os protagonistas. Depois de temporadas de conquistas, a régua subiu de maneira natural e qualquer resultado abaixo da expectativa passou a ser analisado com muito mais rigor.
Mas é preciso separar a vida real da internet. Perfis de redes sociais pedindo a saída do treinador não representam, necessariamente, o pensamento da maioria da torcida e muito menos determinam os rumos do clube. Uma postagem viral pode gerar barulho, mas não significa que exista uma pressão institucional ou interna capaz de fazer a diretoria mudar de decisão.
A manifestação de uma torcida organizada tem outro peso, evidentemente. Ainda assim, até nisso é preciso entender o contexto atual. A Mancha Verde já teve momentos de confronto e de aproximação com Abel, inclusive com períodos de trégua em que o nome do treinador voltou a ser cantado no estádio. Portanto, não existe uma relação linear que permita dizer que uma manifestação representa automaticamente todo o palmeirense.
Exigência do palmeirense aumentou com os títulos
O que existe, na minha visão, é um acúmulo de frustração. O Palmeiras passou os últimos anos disputando praticamente tudo e, justamente por isso, as temporadas sem determinados títulos passaram a ser consideradas fracassos por uma parcela da torcida. O problema é que essa régua pode se tornar tão alta que qualquer resultado que não seja extraordinário passa a ser tratado como crise.
Esse comportamento, aliás, não nasceu com a atual geração. O torcedor do Palmeiras historicamente sempre foi extremamente exigente. Basta lembrar dos tempos em que Luiz Felipe Scolari brincava com a chamada “turma do amendoim”, fazendo referência à cobrança mesmo quando o time apresentava resultados importantes. A diferença é que, depois de tantos títulos, essa exigência ganhou uma dimensão ainda maior.
Hoje, não basta ganhar. É preciso ganhar convencendo, disputar até o fim e, muitas vezes, conquistar mais de uma competição na mesma temporada. Se o Palmeiras perder o Campeonato Brasileiro, haverá quem diga que o título estava nas mãos e escapou. Se for eliminado da Libertadores, a cobrança será ainda maior dependendo do adversário. É uma consequência direta de ter colocado o clube em um patamar esportivo tão elevado.

Abel precisa ser cobrado, mas não pode virar o culpado por tudo
É absolutamente legítimo questionar Abel Ferreira. Nenhum treinador está acima de críticas, e o português também precisa responder quando o Palmeiras não apresenta o futebol esperado ou toma decisões que não funcionam. O problema começa quando toda derrota passa a ser utilizada como prova de que o ciclo acabou, ignorando tudo aquilo que foi construído anteriormente.
O Palmeiras precisa encontrar equilíbrio. Se a diretoria entender que Abel ainda é o profissional adequado para conduzir o projeto, precisa sustentá-lo de maneira clara. Se entender que chegou a hora de mudar, também terá que assumir essa decisão. O que não pode acontecer é o clube ser conduzido pela pressão de uma postagem, de uma organizada ou de uma parcela mais barulhenta da torcida.
Abel tem responsabilidade pelo que acontece dentro de campo, mas o Palmeiras também precisa reconhecer que parte dessa pressão é consequência do próprio sucesso. O clube se acostumou a disputar títulos e criou uma expectativa gigantesca. Cobrar é parte do futebol; transformar cada tropeço em uma crise definitiva, porém, pode fazer o Palmeiras perder justamente uma das maiores virtudes que construiu nos últimos anos: estabilidade.





