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Direto da Redação

Opinião: Alô, Abel! Expor Vitor Roque pode ser ‘tiro no pé’ no Palmeiras, assim como foi com Raphael Veiga

Estratégia que funcionou com Flaco López não é ciência exata, e o caso Raphael Veiga em 2025 mostra que a exposição pública pode ter efeito contrário ao desejado

Raphael Veiga deixou Palmeiras por empréstimo no fim de 2025 para atuar no México
© IMAGO/Sports Press PhotoRaphael Veiga deixou Palmeiras por empréstimo no fim de 2025 para atuar no México

Abel Ferreira talvez esteja entrando em um terreno perigoso com Vitor Roque. Depois da classificação do Palmeiras sobre o Santos, pelas quartas de final da Copa do Brasil, o técnico voltou a falar publicamente sobre a fase ruim do camisa 9 e afirmou que o atacante precisa “voltar a sorrir” e acreditar novamente em dias melhores. A intenção, aparentemente, é boa. O problema é que nem todo jogador recebe uma cobrança pública como motivação.

Vitor Roque atravessa, de fato, um momento delicado. Além de ainda buscar a melhor condição física após a cirurgia no tornozelo, o atacante parece estar sem confiança. Contra o Santos, teve uma prova disso ao desperdiçar uma chance claríssima de cabeça, após cruzamento perfeito de Giay. Sozinho na área, poderia ter feito o gol, mas errou o movimento e mandou para fora. Para um centroavante que vive de gols, lances assim pesam ainda mais.

E não é apenas a falta de gols. Vitor Roque também tem demonstrado ansiedade em campo. Toma decisões precipitadas, tenta resolver jogadas sozinho, se envolve em discussões desnecessárias e parece jogar com a sensação de que precisa provar alguma coisa a cada minuto. O cartão amarelo recebido diante do Santos, após uma confusão com jogadores reservas do adversário, também foi um retrato desse estado emocional.

Estratégia de Abel com Vitor Roque dará certo? ‘Caso Veiga’ pesa contra

É justamente por isso que a exposição pública merece cuidado. Abel pode acreditar que está fazendo um jogador reagir, mas não existe garantia de que Vitor Roque interprete essas declarações dessa maneira. Para alguns atletas, ouvir do próprio treinador que é preciso recuperar a confiança pode funcionar como combustível. Para outros, pode representar mais pressão, principalmente quando a fase já não é boa.

O Palmeiras tem um exemplo recente que deveria servir de alerta: Raphael Veiga. Em 2025, o meia passou por momentos complicados e, em algumas oportunidades, acabou sendo exposto publicamente por Abel. O episódio mais emblemático aconteceu depois da derrota por 3 a 0 para a LDU, em Quito, pela Libertadores. Naquela partida, Veiga foi utilizado como segundo volante – tática equivocada assumida pelo próprio português na ocasião – em uma altitude de aproximadamente 2.800 metros e acabou sendo um dos alvos das críticas posteriores.

Raphael Veiga não rendeu no Palmeiras em 2025 e foi exposto várias vezes por Abel em coletivas – Foto: Cesar Greco/Ag. Palmeiras

Raphael Veiga não rendeu no Palmeiras em 2025 e foi exposto várias vezes por Abel em coletivas – Foto: Cesar Greco/Ag. Palmeiras

Não estou dizendo que Veiga deixou o Palmeiras por causa das declarações de Abel, tampouco que toda a responsabilidade pela fase ruim de Vitor Roque seja do treinador. Seria simplificar demais situações complexas. Mas é impossível ignorar que a exposição pública pode ter consequências emocionais para um jogador que já está pressionado. Veiga terminou aquele período em uma situação difícil e, posteriormente, acabou emprestado ao América, do México.

Tática surtiu efeito com Flaco López, mas não é uma fórmula matemática

Abel costuma citar Flaco López quando explica esse tipo de estratégia. O argentino demorou para se firmar, recebeu cobranças públicas e, com o tempo, respondeu dentro de campo. Hoje vive um dos melhores momentos de sua carreira e virou um dos principais jogadores do Palmeiras. Só que existe uma diferença fundamental: o fato de ter funcionado com Flaco não transforma a estratégia em uma fórmula matemática.

Futebol não é ciência exata, principalmente quando falamos de confiança. O mesmo estímulo que faz um jogador reagir pode fazer outro se sentir ainda mais pressionado. E Vitor Roque parece justamente estar precisando recuperar leveza. Um centroavante inseguro não precisa apenas de cobrança. Precisa voltar a jogar, errar sem sentir que cada erro será transformado em um julgamento e encontrar novamente a sensação de que o próximo lance pode terminar em gol.

Abel tem crédito de sobra para fazer cobranças. São anos de trabalho, títulos e uma relação de enorme prestígio com o Palmeiras. Mas justamente por conhecer tão bem o ambiente do clube, o português também deveria saber que determinadas conversas talvez tenham mais efeito dentro do vestiário do que diante dos microfones.

Abel precisa resolver seus ‘BOs’ para não pressionar seus pupilos demais da conta

Existe ainda uma questão maior. Abel também vive sob pressão. O Palmeiras precisa voltar a conquistar títulos de expressão nacional e, desde 2023, não levanta uma taça desse tamanho. Nesse cenário, é natural que a cobrança aumente e que o treinador procure respostas dentro do próprio elenco.

Mas transferir parte dessa pressão para determinados jogadores publicamente pode ser um caminho perigoso. Vitor Roque já sabe que está devendo gols. A torcida sabe. Abel sabe. O próprio atacante sabe. Talvez o que ele menos precise neste momento seja de mais um lembrete público disso.

Abel acertou com Flaco López. Pode acertar novamente com Vitor Roque. Mas também pode não acertar. E o caso Raphael Veiga mostra justamente isso. Expor um jogador não é uma ciência exata, muito menos uma fórmula que pode ser repetida indefinidamente. Com o camisa 9, talvez seja hora de Abel trocar um pouco os microfones – que já passou dos limites nas ‘bicudas’ – pelo vestiário. Porque, para Vitor Roque voltar a sorrir, talvez seja mais importante fazê-lo recuperar a confiança do que lembrá-lo publicamente de que ele a perdeu.

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