Talento, por si só, nem sempre garante permanência dentro das regras. Ao longo da história do futebol, jogadores, incluindo nomes de destaque mundial, acabaram ultrapassando limites, seja pelo uso de substâncias proibidas, envolvimento com apostas ou tentativas de burlar controles. Quando isso acontece, a carreira entra em pausa e as consequências costumam ser duras.

Jogadores que já foram suspensos. Foto: Ronald Felipe/Luis Garcia/Bruno Ulivieri/AGIF
Jogadores que já foram suspensos. Foto: Ronald Felipe/Luis Garcia/Bruno Ulivieri/AGIF

Este conteúdo reúne 20 casos que repercutiram no Brasil e no exterior, provocaram debates e deixaram lições importantes para o esporte. A proposta não é expor escândalos, mas apresentar decisões, contextos e os impactos das punições aplicadas no futebol profissional. Confira a lista:

20 – Kieran Trippier

Foto: George Wood/Getty Images

A Federação Inglesa o puniu com 10 semanas de suspensão mundial e multa de 70.000 euros por violar a Regra E8 sobre apostas, a partir de mensagens ligadas à sua transferência ao Atlético (julho de 2019). Uma comissão independente considerou provadas quatro de sete acusações e publicou fundamentos com foco no uso de informação privilegiada.

O caso tornou-se paradigmático: não havia benefício direto comprovado para o atleta, mas existia risco sistêmico para a integridade do mercado. As conversas por WhatsApp que vieram à tona —inclusive o famoso lump on a um amigo— fixaram um padrão de tolerância zero para vazamentos em transferências de alto perfil.

19 – Frank de Boer

Foto: Dean Mouhtaropoulos/Getty Images

O talentoso meio-campista dinamarquês testou positivo para nandrolona em 2001: a UEFA impôs 12 meses, mas a Apelação reduziu a pena e o deixou suspenso até 31 de agosto de 2001 (11 semanas). A decisão considerou a tese de suplementos contaminados após ouvir peritos e revisar o protocolo de laboratório.

O expediente é hoje um clássico da responsabilidade objetiva matizada pela cadeia de custódia e pela plausibilidade científica. A redução permitiu seu retorno no início da temporada, e a imprensa da época destacou a leitura prudente do comitê sobre a ingestão não intencional.

18 – Daniel Sturridge

Foto: Laurence Griffiths/Getty Images

A Appeal Board da Federação Inglesa elevou a sanção do atacante inglês para quatro meses e dobrou a multa para 150.000 euros por compartilhar informação sobre possíveis movimentações de transferência, com extensão mundial pela FIFA (mar–jun de 2020). O órgão de apelação considerou o veredito inicial indevidamente leniente.

O caso reforçou a doutrina contra o insider trading no futebol: ainda que sem apostas próprias, a difusão de dados sensíveis altera o mercado. Sturridge assumiu responsabilidades e reencontrou a carreira fora da Inglaterra após cumprir a pena.

17 – Edgar Davids

Foto: Pete Norton/Getty Images

O meio-campista neerlandês testou positivo para nandrolona (na Juventus em 2001): a FIGC -Federação Italiana – impôs 5 meses e multa, depois reduzidos a 4 pela câmara de apelações. O tom do veredito, similar ao de outros positivos da época, sublinhou a linha dura contra anabolizantes.

Seu retorno rápido preservou o status competitivo e alimentou o debate sobre proporcionalidade: punição efetiva, porém compatível com a carreira na elite. A redução deixou claro que a gradação da pena também considera as circunstâncias do caso.

16 – Jaap Stam

Foto: Gareth Copley/Getty Images

Outro positivo para nandrolona em 2001 (Lazio): recebeu 5 meses da justiça esportiva italiana e a FIFA estendeu o alcance a nível mundial pouco depois. O episódio foi um dos mais ruidosos na Serie A do início dos anos 2000.

O defensor negou dopagem intencional, mas o precedente reforçou a ideia de que controles positivos acarretam sanção global para proteger a competição. Após cumprir a pena, retomou a trajetória em grandes palcos do futebol europeu.

15 – Kolo Touré

Shaun Botterill/Getty Images

A Federação Inglesa sancionou o marfinense em 2011 com seis meses após um positivo para bendroflumetiazida, uma substância especificada presente em pílulas de dieta tomadas por engano, obtidas por meio de sua parceira. A pena contou desde a suspensão provisória de 2 de março de 2011, e o laudo registrou que o próprio jogador vinculou a origem a um slimming aid.

O painel disciplinar sublinhou a responsabilidade objetiva: mesmo sem intenção de melhorar o rendimento, o uso de um diurético proibido configura infração. A FA comunicou que a punição era proporcional e coerente com o regulamento, com inelegibilidade total até o cumprimento integral da suspensão.

14 – Ivan Toney

Yasser Bakhsh/Getty Images

O atacante do Brentford recebeu oito meses de suspensão (17/05/2023–16/01/2024) e multa de 50.000 euros após admitir 232 violações à Regra E8 sobre apostas. A sanção, de aplicação imediata e efeito mundial, incluiu advertência formal e a publicação dos fundamentos escritos do caso.

O expediente descreve um padrão prolongado de apostas, com atenuantes e agravantes avaliados pela comissão independente. O retorno foi fixado para janeiro de 2024, com acompanhamento terapêutico e educativo como parte do tratamento da dependência de jogo detalhado nos documentos do processo.

13 – Rio Ferdinand

Michael Regan/Getty Images

Em 2003, o zagueiro inglês faltou a um controle antidoping agendado, e um painel disciplinar independente o puniu com oito meses e multa, ficando fora da Euro 2004. Embora tenha feito um teste 48 horas depois com resultado negativo, a FA sustentou que a omissão constituía infração grave.

O caso estabeleceu uma linha clara sobre o dever de cooperação: comparecer ao controle é tão obrigatório quanto ter resultado negativo. Com o United brigando por títulos, a ausência de Ferdinand teve impacto esportivo e abriu um amplo debate público sobre proporcionalidade e exemplo dentro da seleção inglesa.

12 – André Onana

Carl Recine/Getty Images

O goleiro testou positivo para furosemida em 2021 após ingerir por engano um medicamento de sua parceira. A UEFA aplicou 12 meses, mas o TAS/CAS reconheceu falta de culpa significativa e reduziu a inelegibilidade para nove meses, de 4 de fevereiro a 3 de novembro de 2021.

O veredito não afastou a infringência objetiva, mas esclareceu o contexto e a ausência de intenção dopante, convertendo-se em caso de estudo sobre medicação doméstica e riscos de confusão de fármacos. Ajax e o próprio jogador acataram a decisão e planejaram o retorno competitivo.

11 – Sandro Tonali

Omar Havana/Getty Images

A FIGC (Federação Italiana) acordou uma sanção de 10 meses a partir de 27/10/2023, dentro de um total de 18 com oito meses comutados por plano terapêutico e atividades educativas. A inelegibilidade teve efeito mundial, e seu clube comunicou os termos e o acompanhamento do processo.

Em 2024, a FA apresentou acusações por fatos ocorridos na Inglaterra (aprox. 50 supostas violações), com resoluções de caráter suspenso que não alteraram o prazo de retorno. Tonali voltou a jogar em agosto de 2024, reabrindo o debate sobre prevenção, tratamento e reintegração após sanções por apostas.

10 – Henrique Dourado

 Buda Mendes/Getty Images

Em 26 de agosto de 2022, a Associação Chinesa de Futebol puniu o atacante brasileiro com 12 meses e multa de 200.000 yuans (US$ 30.000) por um ato de violência contra o árbitro Ma Ning na CSL. A ação —uma investida por trás— ocorreu em Wuhan Yangtze River x Henan e foi classificada como grave pela entidade, que buscou enviar um recado exemplar à liga.

O caso ganhou repercussão internacional pela contundência da punição e por envolver um jogador com passagem pelo primeiro escalão do futebol brasileiro. Relatórios oficiais e de agências ressaltaram a tolerância zero a agressões contra a equipe de arbitragem como eixo de integridade competitiva.

9 – Kevin Lomónaco

Marcelo Endelli/Getty Images

O zagueiro argentino (à época no RB Bragantino) foi inicialmente punido pelo STJD com 380 dias e multa de R$ 25.000 por seu papel no esquema de manipulação com cartão buscado em 2022; depois, em revisão, a pena foi fixada em 360 dias. Em setembro de 2023, a FIFA estendeu a inelegibilidade a todas as federações, computada desde 16/05/2023, o que fechou a porta para atuar em outro país no período.

A Globo detalhou mais tarde o fim da suspensão em maio de 2024, permitindo seu retorno pleno à atividade. O expediente de Lomónaco tornou-se um dos mais citados da Operação Penalidade Máxima, útil para explicar como o Brasil dosifica sanções (comissões, Pleno e depois homologação internacional).

8 – Abel Xavier

Gareth Copley/Getty Images

O defensor português (da Middlesbrough) testou positivo para metandienona após uma partida da Copa da UEFA em 29/09/2005; a UEFA impôs 18 meses a partir de 14 de outubro (início da provisória) e depois rejeitou sua apelação interna. Foi uma das punições mais severas da época por anabólicos em competições europeias, com amplo eco midiático.

Em julho de 2006, o TAS/CAS reduziu a pena para 12 meses, abrindo caminho ao retorno antes da temporada 2006/07; a própria UEFA e diversas crônicas registraram a correção. O caso é citado com frequência para mostrar como o binômio disciplina + arbitragem pode ajustar a punição sem alterar a constatação da infração.

7 – Samir Nasri

Clive Brunskill/Getty Images

Nasri recebeu inicialmente 6 meses por método proibido: uma infusão intravenosa em Los Angeles que excedia o permitido sem TUE. Após apelação do instrutor de ética e disciplina da UEFA, a suspensão foi aumentada para 18 meses em agosto de 2018, tornando-se caso emblemático de sanção pela via de administração e não pela substância em si.

A normativa da WADA proíbe >50 ml em 6 horas salvo hospitalização, cirurgia ou pesquisa clínica —critério vigente no período e ratificado em documentos técnicos. O expediente de Nasri é usado como material didático em integridade: cumprimento de TUE, limites volumétricos e cooperação processual.

6 – Paul Pogba

Gabriele Maltinti/Getty Images

O meio-campista francês foi punido por um ADRV (violação de regra antidopagem) após a detecção de DHEA/testosterona em controle posterior a Udinese x Juventus (agosto de 2023). O Tribunal Nacional Antidoping impôs 4 anos, mas o TAS/CAS confirmou a infração e reduziu a pena para 18 meses, com início em 11/09/2023 e sem multa acessória.

Com a redução, o período de inelegibilidade finalizou em março de 2025, o que abriu a porta ao reintegro competitivo e à reorganização de seu futuro contratual. A cronologia oficial e os relatos de imprensa convergem em que o corte decorreu da avaliação do tribunal sobre a substância e a conduta processual do jogador.

5 – Mateusinho

Foto: Luis Garcia/AGIF

No âmbito da Operação Penalidade Máxima, o lateral foi condenado inicialmente a 720 dias por manipulação de resultados em 2022; o Pleno do STJD reduziu depois a sanção para 600 dias e ajustou a multa, mantendo a inelegibilidade total de atividades federadas. Em setembro de 2023, a FIFA estendeu a pena para todo o mundo a pedido da CBF.

A suspensão ficou plenamente cumprida no início de janeiro de 2025, quando o clube informou que aguardava a formalização para reinscrever o jogador. O caso, um dos mais expostos da operação, serve como exemplo do escalonamento disciplinar (comissões do STJD, Pleno e, por fim, extensão FIFA) em situações de integridade.

4 – Paolo Rossi

Tony Duffy/ALLSPORT

Figura central do Totonero 1980, o atacante foi inabilitado por três anos, reduzidos para dois em apelação. Esse intervalo o deixou fora da Euro 1980, mas ele reapareceu no fim de 81/82, suficiente para integrar a Itália campeã do mundo em 1982 e conquistar a Bola de Ouro.

A reconstrução histórica registra que Rossi sustentou sua inocência e que a redução gerou debate na Itália, embora convalidada por seu desempenho excepcional na Espanha ’82. A relação entre punição, reintegração e legado competitivo faz de sua história um clássico de redenção esportiva.

3 – Adrian Mutu

Gabriele Guerra / Iguana Press/Getty Images

Em 2004, então jogador do Chelsea, o excêntrico atacante recebeu 7 meses de sanção por cocaína sob a jurisdição da Federação Inglesa; a medida incluiu multa e resultou na rescisão com o clube londrino. Anos depois, já na Fiorentina, testou positivo para sibutramina em dois controles de janeiro de 2010, e o CONI lhe impôs 9 meses de suspensão.

O duplo antecedente deixou marca jurídica e midiática: resoluções disciplinares em dois países, litígios civis por danos e um posterior retorno competitivo que atenuou o impacto esportivo sem apagar o caráter exemplarizante das decisões.

2 – Diego Maradona

Chris McGrath/Getty Images

É o caso que rodou o mundo pelo que Maradona foi para o futebol. Sua primeira punição chegou em abril de 1991: 15 meses de suspensão por cocaína após Napoli x Bari, vigente até 30/06/1992, segundo a justiça esportiva italiana. Três anos depois, na Copa de 1994, testou positivo para efedrina após Argentina x Nigéria; em 24/08/1994, a FIFA aplicou nova suspensão de 15 meses.

Esse segundo caso encerrou seu ciclo com a seleção e elevou o padrão de controles em mundiais: a imagem sendo escoltado para o antidoping tornou-se icônica, e a decisão disciplinar foi noticiada como um ponto final competitivo na elite internacional.

1 – Ygor Catatau

Foto: Ronald Felipe/AGIF

Após as decisões do STJD por manipulação/apostas, a FIFA ratificou, em 11/09/2023, os banimentos vitalícios de Ygor Catatau (assim como Matheus Gomes e Gabriel Tota) e estendeu seu efeito a todas as associações. A nota oficial lista outros sancionados (com 360–720 dias), evidenciando a cooperação CBF–FIFA.

O comunicado da entidade e a cobertura local detalham que a extensão mundial impede contornar as penas com contratos no exterior. Esse triplo banimento vitalício virou o emblema disciplinar do caso brasileiro e referência internacional.