A Data Fifa terminou deixando uma provocação particularmente interessante para Abel Ferreira. Flaco López voltou da Argentina com uma espécie de diagnóstico externo sobre o próprio repertório. Lionel Scaloni, treinador da Albiceleste, o descreveu como um jogador “muito completo”, capaz de atuar como centroavante, segundo atacante e até como uma espécie de falso ponta. A frase parece elogiosa, mas pode significar muito mais para o Palmeiras. Afinal, e se justamente essa versatilidade for uma das ferramentas que Abel precisa utilizar na reta final da temporada?
O curioso é que essa discussão aparece justamente quando Flaco atravessa um período de menor produção pelo Palestra. O atacante está há sete partidas sem marcar e soma 11 jogos sem participação direta em gols, segundo levantamento do jornalista PVC, colunista do Uol. O dado aponta uma leitura que expõe como o camisa 42 talvez precise encontrar outras formas de interferir no jogo para que o gol volte a ser consequência.
O treinador argentino não enxergou apenas o centroavante que espera dentro da área. Identificou um atacante capaz de sair da referência, aproximar-se de outros jogadores, pressionar a saída adversária e ocupar diferentes corredores. Isso muda a discussão. Abre a possibilidade de Abel investigar e trabalhar quantas versões do atacante estão disponíveis para o Verdaço.
Flaquito como segundo atacante talvez seja uma das possibilidades mais interessantes. Em determinados momentos, ele poderia abandonar a última linha para receber entre os zagueiros e os volantes adversários, aproximando-se dos meias. Esse movimento criaria uma dúvida na defesa: acompanhar o argentino e abrir espaço às suas costas ou manter a linha e permitir que ele receba de frente? Para um time que muitas vezes encontra adversários compactados, produzir esse tipo de dúvida pode valer mais do que simplesmente colocar mais um jogador dentro da área.
O leque de possibilidades para Flaco
Existe ainda a hipótese do argentino partir de um dos lados e atuar como um falso ponta. Não significa transformá-lo em extremo tradicional, preso à linha lateral. A ideia seria permitir que ele partisse de uma faixa e atacasse o corredor interno, enquanto o ala poderia oferecer amplitude. Num sistema com três zagueiros, essa movimentação poderia ser especialmente interessante. Flaco atrairia um marcador para dentro, abriria espaço exterior e, depois, poderia reaparecer na área. É uma maneira de aproveitar sua presença física sem transformar o ataque em uma sequência previsível de bolas levantadas na área.

Isso também muda a conversa sobre Vitor Roque. Se Flaco tiver liberdade para recuar, deslocar-se para um lado ou atacar uma segunda zona, Vitor pode assumir a profundidade em determinados momentos. Um movimento pode potencializar o outro. Em vez de imaginar uma escolha binária entre os dois, Abel poderia trabalhar uma estrutura na qual as características de ambos se complementem. O desafio, naturalmente, está nos mecanismos: quem sai da área, quem ataca o espaço, quem fixa os zagueiros e quem ocupa a segunda bola.
Por que o Palestra confia na missão para o camisa 42?
Abel já demonstrou que consegue utilizar Flaco em funções diferentes da referência tradicional. O próprio desenho com três zagueiros abre possibilidades para que os atacantes tenham movimentos mais coordenados e que os alas deem amplitude ao time. A questão agora não é descobrir se Flaco consegue fazer algo diferente. A própria passagem pela seleção argentina reforçou essa possibilidade. A questão é transformar essa versatilidade em um mecanismo coletivo que produza vantagem, e não apenas em uma característica individual bonita no papel.
O camisa 42 está vivendo uma temporada em que já alcançou números importantes e, ao mesmo tempo, atravessa uma sequência recente de baixa participação ofensiva. Mas a SEP conhece seu potencial, sabe o que ele entregou ao longo do ano e acaba de receber uma avaliação externa que amplia a percepção sobre suas possibilidades.
Vale lembrar que a reta final da temporada exige respostas rápidas, e adversários já conhecem muitos dos caminhos tradicionais do time. Se Flaco permanecer exclusivamente preso à referência central, a defesa poderá antecipar movimentos e reduzir seus espaços. Se ele puder alternar entre profundidade, apoio e ocupação de corredores, a equipe passa a ter mais uma variável. Não é uma revolução tática. É uma ampliação do repertório justamente quando cada detalhe começa a pesar.
Um provocação para a SEP
A seleção argentina pode ter oferecido a Abel uma informação que parece simples, mas tem enorme valor: Flaco não precisa ser apenas o homem que termina a jogada. Pode também participar da construção dela. Pode aproximar, deslocar, pressionar, criar espaço e depois reaparecer para finalizar. É uma diferença conceitual importante. Quando um atacante consegue exercer funções diferentes sem perder sua ameaça na área, o treinador ganha alternativas sem necessariamente precisar contratar ou inventar um novo jogador.
Scaloni enxergou um atacante de repertório amplo justamente no momento em que Abel precisa ampliar as soluções ofensivas do time. A provocação está pronta: se a Argentina descobriu que Flaco pode ser mais do que um centroavante, por que o Palmeiras não poderia transformar essa descoberta em ferramenta para as próximas decisões? Talvez a melhor maneira de recuperar o gol de Flaco seja, justamente, parar de tratá-lo apenas como alguém que precisa fazer gols.





