O Palmeiras entrou nas dez rodadas finais do Brasileirão em uma situação que, à primeira vista, parece simples: três pontos atrás do Flamengo, líder com 60 contra 57 do Verdão. A matemática, porém, esconde uma exigência maior. O Rubro-Negro também tem duas vitórias a mais, primeiro critério de desempate, e isso significa que o time de Abel Ferreira precisa construir uma sequência capaz de transformar a perseguição em ultrapassagem. Depois do empate sem gols com o Grêmio e da vitória do Flamengo sobre o Bragantino, a caça ao líder ganhou contornos ainda mais concretos.
O ponto mais importante é que o Verdão não pode olhar para a diferença de três pontos como se ela representasse somente uma vitória. Se os dois times tiverem desempenhos semelhantes daqui até dezembro, o líder continuará na frente. O próprio recorte dos próximos adversários mostra isso, já que, repetindo os resultados do primeiro turno contra os rivais que ainda enfrentarão, o clube carioca terminaria o campeonato quatro pontos à frente do Palestra. No primeiro turno desses jogos, o Fla somou 23 pontos, contra 22 da SEP. Ou seja, o Verdão precisa produzir uma vantagem sobre ele ao longo da reta final.
É justamente aí que a constância se transforma no principal tema desta corrida. O Palmeiras chegou a abrir sete pontos de vantagem sobre o Flamengo durante o campeonato, mas perdeu parte dessa gordura depois da Copa do Mundo. No recorte pós-Copa apresentado pelo ge, foram apenas quatro vitórias em dez partidas, além de quatro empates e duas derrotas, aproveitamento de 53,3%. Antes da pausa, o rendimento era de 75,9%.
O Palmeiras tem 16 vitórias e nove empates, enquanto o Clube de Regatas chegou a 18 vitórias e seis igualdades. São três empates a mais para o Alviverde, justamente a quantidade de pontos que hoje separa os dois na classificação. Analisando de forma fria, porém direta e sem rodeios, os empates representam partidas nas quais o Palestra deixa escapar dois pontos e passam a ter um peso que não existia quando havia gordura na liderança.
O empate com o Grêmio ilustra perfeitamente essa mudança de contexto. O Verdão saiu de Porto Alegre com um ponto em uma partida na qual teve amplo controle territorial e produziu volume ofensivo, mas não conseguiu transformar a superioridade em vitória. Antes, um resultado assim poderia ser absorvido pela vantagem construída no campeonato. Agora, cada igualdade precisa ser observada também pelo que o Flamengo fará na mesma rodada. O líder venceu o Bragantino por 2 a 1 e transformou o tropeço palmeirense em uma oportunidade para abrir três pontos. É assim que funciona uma perseguição: o adversário não precisa necessariamente derrotar o Palmeiras; basta aproveitar os momentos em que ele deixa de ganhar.
O caminho da rota palestrina rumo ao sucesso
Por outro lado, há um elemento capaz de alimentar a reação em Verde e Branco: o calendário. Das dez partidas restantes, seis serão disputadas pela SEP como mandante: Bahia, Corinthians, Bragantino, Remo, Flamengo e Coritiba. Fora de casa, estarão Athletico-PR, Santos, Cruzeiro e Chapecoense. É uma distribuição que coloca sobre o time de Abel uma espécie de obrigação competitiva nos jogos em São Paulo, mas também oferece oportunidades importantes longe de seus domínios. A própria campanha como visitante mostrou que o Verdão tem capacidade para pontuar fora, no entanto, o desafio agora é combinar essa força com uma sequência doméstica suficientemente consistente.
O calendário, aliás, não deve ser analisado apenas pela quantidade de mandos ou pela suposta facilidade dos adversários. Flamengo e Palmeiras ainda possuem diversos confrontos contra os mesmos clubes, o que transforma essas partidas em uma espécie de campeonato paralelo. Bahia, Santos, Athletico-PR, Chapecoense e Coritiba estão no caminho dos dois, enquanto cada equipe também terá compromissos específicos capazes de alterar a corrida. A chave do sucesso está em quem conseguirá extrair mais pontos dos jogos que os dois terão em comum.

Existe uma data que concentra boa parte dessa equação: a 36ª rodada. Palmeiras e Flamengo se enfrentarão em São Paulo, em um confronto que poderá assumir uma natureza completamente diferente dependendo do que acontecer nas sete rodadas anteriores. Se o Verdão conseguir reduzir ou inverter a distância, a partida poderá ser uma oportunidade de consolidar a perseguição. Se chegar alguns pontos atrás, a vitória se tornará praticamente indispensável para recolocar o campeonato em equilíbrio.
O retrato de momento cobra ritmo intenso da SEP
Isso também explica por que a margem de erro palmeirense precisa ser tratada com cuidado. Se o Flamengo fizer 21 pontos nas dez rodadas restantes, por exemplo, chegará a 81. Para terminar à frente em pontuação, o Palmeiras precisaria alcançar pelo menos 25 nesse mesmo período. Se o líder fizer 18, o Verdão precisará de 22. A diferença de três pontos atual não revela sozinha o tamanho da tarefa. O que realmente importa é a distância entre os ritmos de pontuação que cada um conseguirá estabelecer até dezembro. Quanto mais o CRF vencer, maior será a produção necessária da SEP.
Há ainda uma particularidade que pode transformar a reta final em um teste de maturidade para Abel Ferreira e seu elenco, com o time também nas semifinais da Libertadores e da Copa do Brasil, enquanto os cariocas disputam a semifinal continental. O desgaste, as convocações e a necessidade de administrar jogadores podem interferir diretamente na capacidade de manter regularidade. No fim das contas, a caça ao Flamengo exige do Palmeiras algo diferente da simples obsessão pela liderança.
Não basta apenas o duelo direto entre CRF X SEP
O Verdão precisa construir uma sequência que faça a tabela trabalhar a seu favor antes mesmo do confronto direto. Não basta ganhar do Flamengo na 36ª rodada se, até lá, pontos forem desperdiçados contra adversários que também estarão no caminho do líder. E tampouco basta vencer os jogos em casa se o Flamengo continuar mantendo um ritmo superior. A perseguição começa muito antes daquele duelo e será decidida pela capacidade de transformar dez rodadas em uma sequência de pressão constante.
O Palmeiras ainda está a apenas três pontos do líder, e isso mantém a disputa absolutamente aberta do ponto de vista matemático. Mas a natureza da corrida mudou. O time que chegou a construir vantagem agora precisa recuperá-la, e o Flamengo passou de perseguido a referência. Para o Verdão, a missão é reduzir a margem de erro, ganhar consistência e chegar ao confronto da 36ª rodada com o campeonato suficientemente apertado para que aquela partida possa realmente mudar tudo.





