A volta do Palmeiras ao Brasileirão depois da Data Fifa carrega uma discussão que vai muito além da escalação. Abel Ferreira terá de decidir qual estrutura faz mais sentido para enfrentar o Bahia, mas a resposta não passa apenas pela preferência tática. O treinador precisa considerar também as diferentes condições físicas dos jogadores que retornam das seleções e uma sequência que começa na quinta-feira (8) e rapidamente ganha contornos de maratona.
A tendência de uma linha com Giay, Gustavo Gómez, Murilo e Arthur recoloca em cena o Palestra com quatro defensores. É uma formação capaz de preservar mecanismos conhecidos e dar continuidade a uma configuração que já foi utilizada ao longo da temporada. Mas existe outra possibilidade que Abel já conhece bem: a utilização de três zagueiros, com os alas recebendo maior liberdade e o time redistribuindo seus jogadores no campo.
A discussão reacende velho debate entre um time mais ofensivo ou mais defensivo. Três zagueiros não significam necessariamente recuo, assim como quatro defensores não garantem automaticamente maior agressividade. A diferença está em como o Verdão ocupa os espaços, onde posiciona seus laterais e de que maneira consegue liberar seus jogadores mais importantes no ataque.
Há uma variável que torna essa decisão crucial, pois a SEP não retorna da Data Fifa nas mesmas condições em que saiu. O clube teve 11 convocados, oito deles do elenco profissional, e precisou montar uma logística específica para trazer os jogadores de volta antes do Bahia. Giay e Flaco López, por exemplo, têm chegada prevista entre terça e quarta-feira, enquanto Jhon Arias só retorna após atuar pela Colômbia na terça. Piquerez e Emiliano Martínez são os casos mais extremos, porque entram em campo na Índia e devem chegar ao Brasil apenas na quarta à tarde.
Isso transforma a escalação em uma decisão de gestão de risco. Abel precisa saber quem estará realmente preparado para jogar 90 minutos, quem poderá atuar por uma hora e quem talvez seja mais útil entrando no segundo tempo. O Clube fará avaliações físicas dos convocados na reapresentação justamente por causa do desgaste acumulado.
Há uma vantagem nas mãos do adversário baiano
O contraste com o Bahia chama atenção. Rogério Ceni chega ao confronto com praticamente todo o elenco de linha à disposição. O departamento médico do clube baiano está praticamente vazio, com apenas o goleiro Léo Vieira fora da temporada. Michel Araújo, último jogador a retornar aos treinamentos, já trabalha parcialmente com o grupo. Ou seja: enquanto o adversário consegue preparar sua equipe com uma semana relativamente previsível, o Palmeiras precisa encaixar peças que chegam de diferentes países e em diferentes horários.
Por isso, uma estrutura com três zagueiros pode aparecer como mais do que uma alternativa tática. Ela pode ser uma ferramenta de administração do elenco. Com uma linha de três, Abel poderia proteger determinados setores, liberar os alas e criar uma distribuição capaz de diminuir a necessidade de alguns jogadores sustentarem grandes distâncias durante todo o jogo. Não seria necessariamente um Verdaço mais cauteloso. Seria um Palmeiras tentando controlar melhor o esforço.

Por outro lado, a linha de quatro oferece uma vantagem que não pode ser ignorada: continuidade. Giay, Gómez, Murilo e Arthur formam uma composição mais convencional, enquanto Arthur chega justamente em um momento importante, depois de renovar contrato até 2030 e ganhar espaço como reserva imediato de Piquerez. A utilização do lateral também pode representar uma maneira de evitar expor Piquerez imediatamente após uma viagem tão longa.
Uma questão administrativa para Abel
Eis o dilema de Abel. O Bahia é apenas o primeiro teste de uma sequência que começa em 8 de outubro, passa pelo Corinthians três dias depois e chega ao confronto com o Fluminense, pela Libertadores, no dia 14. São três partidas de naturezas completamente diferentes em apenas seis dias. O Palmeiras terá de administrar Brasileiro, clássico e semifinal continental quase como se fossem capítulos de uma mesma decisão.
Nesse cenário, a melhor escalação contra o Bahia pode ser aquela que permita ao Alviverde Imponente atravessar os 90 minutos sem transformar a partida em uma conta física para o Derby e, principalmente, sem chegar ao duelo com o Fluminense com jogadores importantes já desgastados. A escolha do esquema passa a ser também uma escolha sobre como Abel pretende distribuir energia pela semana.
Mais uma vez, a identidade palestrina em jogo
A partida contra o Bahia pode revelar uma característica importante do Palmeiras nesta reta final: a capacidade de mudar a estrutura sem abandonar a identidade. Se Abel optar pelos quatro defensores, estará privilegiando continuidade e familiaridade. Se recorrer aos três zagueiros, poderá estar buscando flexibilidade e proteção diante de um elenco que chega de uma Data Fifa particularmente pesada.
Nenhuma das opções precisa representar uma mudança de filosofia. No fundo, a primeira decisão da reta final será sobre qual Palmeiras Abel quer colocar de pé para atravessar uma sequência em que não haverá tempo para reconstruir o time a cada jogo. O Bahia chega praticamente inteiro. O Palestra chega com jogadores espalhados pelo mundo, diferentes cargas de minutos e uma maratona pela frente.





