As laterais da Seleção Brasileira se tornaram um dos maiores pontos de interrogação do atual ciclo. A poucos meses da Copa do Mundo de 2026, Carlo Ancelotti ainda não encontrou donos das posições, nem pela direita, nem pela esquerda, algo impensável em outras gerações.

A dúvida contrasta com a tradição do país. O Brasil sempre tratou os laterais como peças ofensivas fundamentais. Carlos Alberto e Everaldo marcaram época no tricampeonato de 1970, Cafu e Roberto Carlos lideraram o penta em 2002, enquanto Daniel Alves e Marcelo mantiveram o padrão nas décadas seguintes.
Hoje, porém, esses perfis fazem falta. A escassez de alas ofensivos não é pontual, mas resultado de mudanças profundas no futebol brasileiro e global, que alteraram a forma de formar, utilizar e valorizar jogadores da posição.
Formação defensiva vem lá de fora
Para o jornalista Marcio Dolzan, do portal Lance!, o processo começa cedo demais. Segundo ele, clubes brasileiros vendem laterais ainda em formação para a Europa, onde passam a ser treinados em modelos que priorizam o jogo defensivo, e não a vocação ofensiva histórica do país.
A comparação entre gerações ilustra o problema. Quando Cafu chegou ao futebol europeu, em 1995, tinha 24 anos, títulos continentais pelo São Paulo e já era campeão mundial com a Seleção. Atualmente, casos como o de Caio Henrique, que deixou o Brasil aos 18, refletem uma mudança radical de timing e maturação.
Além disso, a própria formação de base contribui para o cenário. Jogadores com perfil ofensivo são cada vez mais moldados como pontas, enquanto o lateral moderno passa a ser visto como uma função de equilíbrio e contenção.
Testes, números e a busca por soluções
Desde 2023, 19 laterais já foram convocados pela Seleção, nove pela direita e dez pela esquerda. Nenhum deles, com exceção de Danilo — hoje mais zagueiro do que lateral —, ultrapassou dez partidas no período, evidenciando a falta de continuidade e afirmação.
Ancelotti segue testando alternativas, inclusive adaptações, como a utilização de Éder Militão na lateral, opção que o treinador vê como forma de dar mais solidez defensiva. Enquanto Cafu pede paciência e fala em adaptação, o Brasil tenta reencontrar uma posição que já foi símbolo de talento, ousadia e protagonismo ofensivo.