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Direto da Redação

Palmeiras goleia o Corinthians e usa Memphis Depay como trilha sonora do deboche

A rivalidade transforma gestos, refrões e comemorações em lembranças que sobrevivem ao apito final. Dessa vez, o Verdão aproveitou um símbolo rival para prolongar a festa com humor mordaz

Memphis Depay desolado no chocolate palestrino no Brasileirão - (Photo by Alexandre Schneider/Getty Images)
© Getty ImagesMemphis Depay desolado no chocolate palestrino no Brasileirão - (Photo by Alexandre Schneider/Getty Images)

Há vitórias que terminam no apito final. Outras pedem bis, repeteco e, se possível, um bom sistema de som. No domingo (11), o Palmeiras fez 4 a 1 no Corinthians e resolveu esticar a festa no vestiário com uma escolha musical que dispensava explicações: “Deixa o Chefe Balançar”, canção associada a Memphis Depay, nas celebrações corintianas pelo título da Copa do Brasil. O placar já dizia bastante. A playlist resolveu acrescentar o barulho.

No futebol, a fronteira entre comemoração e provocação é tão estreita quanto a paciência do torcedor depois de uma derrota para o maior rival. Os jogadores do Palestra, aparentemente, não estavam interessados em estudar essa delicada questão diplomática. Escolheram a música, aumentaram o volume e fizeram do vestiário uma extensão da arquibancada. Quatro gols não pareciam suficientes para encerrar o expediente.

O placar funciona como argumento, credencial e, em certas vezes, autorização para o deboche. A SEP não precisava inventar uma narrativa para se colocar acima do rival: os quatro gols já haviam produzido a manchete. A música foi o comentário espirituoso depois do ponto final, aquele parágrafo que não altera a conclusão, mas deixa o leitor com um sorriso, ou com vontade de contestar o autor.

A ironia está no destino de um símbolo. Uma música que ajudou a embalar a festa corintiana passou a servir de trilha para a comemoração palmeirense. É quase uma pequena aula sobre a propriedade intelectual no futebol: o adversário investe na construção de um ritual, dá a ele nome, rosto e refrão, mas não consegue impedir que o rival encontre outra utilidade para o produto. No mercado da corneta, os direitos autorais costumam ser bastante flexíveis.

O troco palestrino escolheu seu alvo maior

Memphis, nesse roteiro, virou personagem de uma festa da qual não participava. Não é necessário imaginar um capítulo secreto de bastidores no silêncio alvinegro. O simbolismo já funciona por conta própria. Quando uma figura se associa a uma música, a uma comemoração e a um momento importante do rival, oferece involuntariamente matéria-prima para a próxima provocação. O futebol tem dessas delicadezas: às vezes, a homenagem sobrevive, mas muda de endereço.

Há também uma diferença fundamental entre a provocação que nasce de uma vitória e aquela que tenta compensar uma derrota. O Palmeiras não precisou fabricar um acontecimento para fazer barulho. Venceu por 4 a 1, diante de sua torcida, e encontrou na própria história recente do adversário o ingrediente adicional para a celebração. A música não fez os gols, evidentemente. Mas ajudou a transformar o resultado em narrativa, e narrativas, no futebol, costumam durar mais do que os noventa minutos.

Domingo de festa comemoração e deboche no Palestra. Pesadelo para o arquirrival – (Foto: Cesar Greco/Palmeiras/by Canon)

Domingo de festa comemoração e deboche no Palestra. Pesadelo para o arquirrival – (Foto: Cesar Greco/Palmeiras/by Canon)

O Derby, afinal, nunca foi uma reunião de condomínio em que os vizinhos discutem a cor da parede e terminam dividindo o elevador com sorrisos protocolares. Desde as provocações do século passado até as provocações que atravessam as redes sociais, a rivalidade paulista vive de gestos que ganham proporções históricas. Um drible, uma frase, uma música ou uma comemoração podem virar patrimônio afetivo de uma torcida e material de expediente para a outra. O clássico é também uma disputa pela memória.

Uma velha história de provocação no Derby

O Palmeiras conhece bem essa mecânica. A história do porco, por exemplo, ensina que nem sempre o autor de uma provocação consegue controlar o significado que ela terá no futuro. Aquilo que nasceu como ofensa pode acabar incorporado à identidade de quem deveria se sentir atingido. No caso de Memphis, o movimento é diferente: não se trata de transformar um insulto em símbolo próprio, mas de aproveitar um símbolo alheio para temperar uma vitória. A rivalidade é uma espécie de reciclagem permanente, com o detalhe de que ninguém se preocupa muito com a sustentabilidade emocional do adversário.

Naturalmente, a cena também diz algo sobre o futebol brasileiro de hoje. O espetáculo não termina quando a bola para de rolar. Há o vídeo, o recorte, o meme, a postagem e a disputa pela última palavra. O vestiário virou mais um palco, e a comemoração passou a ser produzida também para quem assistirá depois, pelo celular. A música escolhida pela SEP tinha um destinatário evidente, mas uma plateia muito maior. O Derby acabou no gramado, na internet, ganhou prorrogação.

O mais interessante é que a goleada dispensou o exagero. Não era necessário declarar superioridade histórica, decretar o fim de uma era ou transformar um domingo em sentença definitiva sobre o arquirrival. Bastava lembrar o resultado e apertar o play. O 4 a 1 já continha a mensagem, a música apenas escolheu a embalagem. Como acontece nas melhores provocações, o destinatário conhecia perfeitamente o motivo da brincadeira, enquanto o remetente podia alegar, com a inocência teatral de quem acaba de esconder o controle remoto, que estava apenas comemorando.

Sem crise, é apenas futebol

Há uma certa sabedoria na escolha de não inventar uma piada inteiramente nova. O Palestra encontrou uma referência que o torcedor reconhece, que o corintiano identifica e que dispensa longas legendas. Em tempos nos quais qualquer provocação corre o risco de virar um tratado de marketing, a simplicidade tem seu charme. No fim das contas, o Verdaço fez o que se espera de um rival quando a oportunidade aparece: ganhou em campo e prolongou a festa fora dele.

Não há necessidade de transformar a cena em uma crise diplomática, muito menos de procurar nela uma tese definitiva sobre o caráter de Memphis ou dos jogadores envolvidos. Foi futebol, foi provocação e foi humor de vestiário. O tipo de episódio que alimenta a rivalidade justamente porque não exige solenidade. Até o Corinthians conseguir descontar em uma revanche, a música da zoeira ganhou uma nova lembrança, o placar seguirá disponível para consulta e os palestrinos terão mais um motivo para sorrir quando o refrão tocar. Desta vez, o Maior Campeão do Brasil nem precisou compor a canção. Bastou escolher a trilha certa para uma goleada que já tinha ritmo próprio.

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