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Direto da Redação

Opinião: No casamento de Abel com o Palmeiras, até os títulos viram motivo de DR

Abel ironiza quem questiona seu repertório, mas a relação com a torcida revela um conflito que vai muito além das entrevistas

Abel Ferreira,, em jogo contra a equipe do C Athletico Paranaense, durante partida válida pela trigésima primeira rodada, do Campeonato Brasileiro, Série A, na Arena da Baixada. (Foto: Cesar Greco/Palmeiras/by Canon)
Abel Ferreira,, em jogo contra a equipe do C Athletico Paranaense, durante partida válida pela trigésima primeira rodada, do Campeonato Brasileiro, Série A, na Arena da Baixada. (Foto: Cesar Greco/Palmeiras/by Canon)

Abel Ferreira tem quase 800 jogos de experiência, uma coleção de títulos e uma capacidade admirável de transformar entrevistas coletivas em capítulos de uma novela que parece não ter previsão de encerramento. Depois de vencer o Athletico-PR por 2 a 0, o português resolveu ironizar os críticos que enxergam no Palmeiras um time sem repertório e nele um treinador que não presta. Foi uma resposta com endereço conhecido, destinatários numerosos e aquela delicadeza de quem distribui flores usando luvas de boxe.

Confesso que gosto quando o futebol oferece essas contradições prontas. O Palestra venceu pela quarta vez consecutiva, chegou aos 66 pontos no Campeonato Brasileiro e continuou vivo na disputa pelos três títulos restantes da temporada. Ainda assim, o treinador precisou reservar parte de sua entrevista para discutir com quem questiona suas ideias. É quase um paradoxo alviverde: enquanto o time trabalha para conquistar taças, seu comandante parece empenhado em conquistar também o direito de ter a última palavra.

A ironia de Abel tem um mérito: expõe o exagero de certas críticas. Não é razoável ignorar o trabalho de um treinador que ajudou a construir uma das fases mais vitoriosas da história da SEP. Mas também não é preciso organizar uma cerimônia de agradecimento a cada escalação para reconhecer isso. O português sabe que sua trajetória lhe dá crédito. O problema é que, às vezes, parece querer receber os juros desse crédito em cada entrevista. No futebol, a memória dos títulos é longa, mas a paciência com uma atuação ruim costuma durar menos que o intervalo.

Essa relação já teve episódios suficientes para render uma série com várias temporadas. Depois da eliminação para o Corinthians na Copa do Brasil de 2025, Abel ouviu xingamentos de torcedores no Nubank Parque. Em outras ocasiões, o treinador reclamou da maneira como parte da arquibancada trata os jogadores e cobrou reconhecimento pelas conquistas. A torcida, por sua vez, não deixou de manifestar sua insatisfação quando o desempenho ficou abaixo da expectativa. É um relacionamento em que ninguém parece disposto a pedir o divórcio, mas ambos mantêm uma pasta de documentos para apresentar durante a próxima discussão.

Abel reclama, mas quer a família presente no Palestra

O detalhe é que Abel não pede apenas compreensão para suas escolhas. Ele também quer que a torcida compareça e apoie o Verdaço nos bons e maus momentos, especialmente agora, quando o calendário oferece decisões em série. Entendo o argumento. O estádio não pode ser uma espécie de restaurante em que o cliente só aparece quando o cardápio promete filé-mignon e desaparece quando o prato do dia exige algum sacrifício. Mas há uma diferença entre pedir apoio e esperar aprovação permanente. O torcedor não é funcionário do clube, não recebe salário para aplaudir e não perde o direito de reclamar porque o treinador ganhou títulos.

Também seria injusto tratar a cobrança como uma invenção de quem não reconhece a grandeza do trabalho. O Alviverde construiu uma régua elevada, e foi justamente a sequência de conquistas que tornou o ambiente mais exigente. O sucesso tem dessas crueldades: depois de acostumar o público a disputar finais, até uma temporada competitiva pode ser examinada como se fosse um exame de recuperação. Abel participou diretamente da construção dessa expectativa e, portanto, não pode se surpreender quando ela aparece à porta. Quem ajuda a instalar uma régua no alto não deve reclamar toda vez que alguém resolve medi-la.

Sobre a polêmica referente ao repertório de Abel Ferreira

Sobre o tal repertório, prefiro olhar para o campo antes de aceitar a sentença de qualquer lado. Contra o Athletico-PR, o Palmeiras venceu mesmo depois de perder Andreas Pereira por expulsão ainda no primeiro tempo. Maurício e Piquerez marcaram, e o time precisou reorganizar suas tarefas para sustentar a vantagem com dez jogadores. O resultado não prova que todas as decisões de Abel sejam corretas, assim como uma derrota não transformaria automaticamente o treinador em um sujeito sem ideias. Prova, porém, que existe capacidade de adaptação e resposta coletiva. Se isso não é repertório, ao menos é uma maneira bastante eficiente de estragar a tese dos críticos durante alguns dias.

O próprio Abel reconheceu que a mesma fórmula pode funcionar em uma partida e fracassar em outra. É uma observação simples, quase uma heresia em tempos nos quais as redes sociais distribuem certificados de competência tática a cada noventa minutos. O futebol não é uma planilha que entrega o mesmo resultado sempre que alguém repete a operação. Há adversários, circunstâncias, lesões, expulsões e jogadores que acordam em dias diferentes. Isso não livra o treinador da responsabilidade de encontrar soluções, apenas recomenda cautela antes de decretar que suas ideias venceram o prazo de validade.

Lenha na fogueira da DR no casamento Alviverde

O problema é que Abel também alimenta a fogueira quando transforma a crítica em confronto pessoal. Seu humor pode ser afiado, mas a ironia dirigida aos adversários de suas ideias raramente encerra a discussão. Às vezes, faz o contrário: oferece mais combustível para quem já estava disposto a contestá-lo. Não acredito que o treinador precise fingir serenidade diante de toda provocação, nem que deva aceitar qualquer julgamento como verdade absoluta. Mas há momentos em que a melhor resposta a uma acusação de falta de repertório é apresentar uma solução nova no campo, não explicar pela milésima vez que o currículo está à disposição dos interessados.

A Libertadores, agora, oferece um cenário apropriado para que essa conversa saia da sala de imprensa. O Palestra venceu o Fluminense por 2 a 1 no Maracanãe chega à volta da semifinal com a vantagem de poder avançar à decisão com um empate. É uma oportunidade de transformar a tensão em energia competitiva, sem exigir que a arquibancada assine um tratado de paz nem que o treinador renuncie à sua personalidade. O time precisa de apoio, mas também precisa entregar uma atuação compatível com a importância da partida. Uma coisa não anula a outra.

Entre tapas e beijos, a união tem motivos para ser cada vez mais forte

No fundo, Abel e a torcida parecem presos a uma discussão típica de casamento longo: os dois conhecem as virtudes um do outro, sabem onde estão os defeitos e guardam na memória episódios suficientes para sustentar qualquer argumento. O treinador quer ser julgado pelo conjunto da obra, já o torcedor insiste em perguntar o que será feito na próxima partida. Eu ficaria com uma combinação menos dramática: reconhecer o que Abel construiu, cobrar o que ainda precisa funcionar e deixar que o futebol tenha a palavra final. Afinal, no Maior Campeão do Brasil, até a falta de repertório virou assunto de família. Na quarta-feira (21), ninguém vai querer saber quem venceu a discussão na entrevista coletiva. A única resposta que realmente interessa estará no placar.

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