O Departamento Médico do Palmeiras começa, enfim, a perder espaço na escalação. Durante meses, as lesões fizeram parte do planejamento quase tanto quanto o adversário da rodada. Agora, Maurício, Ramón Sosa e Piquerez estão novamente disponíveis, enquanto Paulinho trabalha para voltar após a Data Fifa. Parece apenas uma boa notícia. Não é tão simples. Cada retorno mexe numa engrenagem que continuou funcionando sem o jogador ausente e, em alguns casos, criou soluções que Abel Ferreira talvez não devesse abandonar tão depressa.
Piquerez é o exemplo mais evidente. Arthur aproveitou a ausência do uruguaio e oferece uma alternativa mais agressiva para atacar espaço e participar da construção. Piquerez, por sua vez, tem maior familiaridade com a saída pelo corredor e oferece experiência para controlar o setor. Minha leitura é que Abel ganhou uma disputa útil, não um problema.
Em determinados jogos, sobretudo contra adversários que defendem baixo, Arthur pode justificar a escolha pela capacidade de dar amplitude e atacar o último terço. Em partidas nas quais o Verdão precise de maior equilíbrio, Piquerez tende a recuperar valor. A volta do titular não deveria matar a alternativa que nasceu durante sua ausência.
O caso de Giay ajuda a ampliar a discussão. O argentino ganhou importância justamente porque Abel encontrou nele uma peça capaz de alterar a estrutura: lateral em alguns contextos, ala quando o Palmeiras joga com três zagueiros e até uma espécie de quinto homem em determinadas fases ofensivas.
Para Abel Ferreira pensar…
Quando jogadores retornam, existe o risco de o treinador voltar automaticamente às soluções antigas. Seria um desperdício. Se a lesão de alguém abriu espaço para uma nova função de Giay, o retorno não precisa fechar essa porta. Um elenco profundo é aquele que permite ao treinador conservar as descobertas feitas pelo caminho.
Maurício apresenta outra questão. O meia voltou a ser opção justamente quando o time encontrou em outros jogadores diferentes maneiras de ocupar os espaços atrás dos atacantes. Ele tem capacidade para atuar entre linhas, associar-se por dentro e aparecer próximo da área, mas precisa disputar minutos num setor em que Abel também pode utilizar Arias, Felipe Anderson e outras soluções. A tendência natural seria imaginar que a volta de Maurício aumenta simplesmente a qualidade da reserva.
Eu não vejo dessa maneira. Ele pode ser uma peça importante para mudar o ritmo de uma partida, principalmente quando o Palestra precisar de um jogador que receba entre linhas em vez de apenas acelerar pelos lados. Ramón Sosa talvez seja o caso que mais mereça atenção. O paraguaio chegou justamente com características de velocidade e condução que podem ser úteis contra defesas já organizadas. O problema é que retorno físico não significa automaticamente encaixe competitivo.
Se Abel entender que Arias e outras peças oferecem hoje maior consistência coletiva, Sosa corre o risco de virar uma opção de banco bastante cara em termos esportivos: disponível, mas sem sequência suficiente para mostrar o que pode entregar. E aqui existe uma cobrança que considero justa. Se o Palmeiras investiu em um jogador com uma característica que falta ao elenco, precisa encontrar momentos para testá-lo de verdade. Dez minutos esporádicos não produzem diagnóstico.
Há jogadores que são reservas porque realmente perderam a disputa e há jogadores que continuam sendo reservas porque nunca receberam uma sequência capaz de permitir avaliação justa. São situações diferentes. E o segundo grupo é o que mais me interessa neste momento. Sosa, por exemplo, precisa de uma sequência mínima para sabermos se é apenas uma alternativa de velocidade ou se pode realmente disputar uma vaga. O mesmo raciocínio vale para outras peças que tiveram minutos fragmentados enquanto o time priorizava soluções mais consolidadas.
O camisa 10 requer mais atenção
Paulinho é ainda mais complexo. Quando voltar, não será razoável imaginar que simplesmente ocupará o espaço que deixou. O Palmeiras passou a jogar sem ele, Arias chegou e outras combinações foram testadas. Ao mesmo tempo, Paulinho oferece algo que nenhum debate sobre hierarquia deveria ignorar, com a capacidade de atacar espaços, mobilidade e presença ofensiva. Se estiver fisicamente inteiro, pode representar uma solução diferente para partidas nas quais o Alviverde encontrar dificuldades para transformar posse em profundidade. Mas existe uma condição óbvia, pois, primeiro precisa voltar a jogar com regularidade. Não há análise tática que sobreviva a um jogador que não consegue permanecer em campo.

E aqui aparece o problema mais interessante para Abel: alguns jogadores podem estar disponíveis e, ainda assim, não estar realmente concorrendo. O Palmeiras possui nomes suficientes para formar duas escalações em determinadas posições, mas nem todos recebem o mesmo nível de confiança. O mapa de minutos mostra isso. A questão é quem joga pouco apesar de oferecer uma característica que o time eventualmente precisa. Quando uma equipe tem dificuldade para acelerar, quem oferece velocidade? Quando falta jogo entre linhas, quem pode receber por dentro? Quando o adversário fecha o corredor central, quem consegue atacar o espaço lateral? É dessas perguntas que deveria nascer a rotação.
Retornos abrem o leque
Os retornos do DM podem ser mais importantes para Abel do que parecem, já que eles recuperam possibilidades táticas. Piquerez permite uma lateral mais equilibrada; Arthur pode aumentar a agressividade; Maurício acrescenta jogo entrelinhas; Sosa oferece ruptura; Paulinho, quando estiver pronto, pode acrescentar mobilidade ao ataque. O erro seria tratar todos esses retornos como simples reposição de estoque. Futebol não é supermercado, afinal, colocar mais produtos na prateleira não significa vender mais.
O Palmeiras chega à reta decisiva com um problema bastante diferente daquele que tinha algumas semanas atrás. Antes, Abel precisava descobrir como sobreviver às ausências. Agora, precisa decidir o que fazer com as alternativas que voltaram e, sobretudo, com aquelas que apareceram durante a ausência dos titulares. Minha impressão é que o maior ganho está em ampliar o repertório. Se o treinador conseguir transformar esses retornos em concorrência real, o Palestra terá algo mais valioso do que um DM vazio: terá mais de uma maneira de jogar.





