O acordo que Roberto Melo discute com a Ticketmaster para o Internacional tem um modelo pronto no futebol brasileiro. O Conselho Deliberativo do São Paulo vota, entre esta terça e quarta-feira, um contrato com a mesma empresa que antecipa R$ 140 milhões ao clube paulista. E, segundo apurou o Bolavip, avançar nessa negociação era uma das razões do candidato colorado para pedir a antecipação da eleição.
Como revelou o jornalista Venê Casagrande, Melo se reuniu na semana passada, em São Paulo, com representantes da Ticketmaster para tratar de um possível acordo de ticketing e sócio-torcedor, com aportes que podem chegar a R$ 100 milhões. A empresa tenta fechar com o Inter desde 2025, e o dinheiro poderia quitar as dívidas que geram os transfer bans.

Como o São Paulo fez o acordo
No São Paulo, os R$ 140 milhões são divididos em duas partes. A maior, de R$ 110 milhões, é uma antecipação financeira que funciona como empréstimo: o clube devolve o valor à Ticketmaster em até cinco anos, com juros calculados pelo CDI mais 1,99%. Os outros R$ 30 milhões são pagos pela gestão do camarote 29A do MorumBIS, também por cinco anos, em jogos e eventos.
A devolução sai direto do estádio. O contrato prevê a retenção de até R$ 1,8 milhão por mês das receitas do MorumBIS, inclusive nos meses sem eventos, o que pode chegar a R$ 21,6 milhões por ano. O acordo ainda prevê R$ 6 milhões para a reforma do Museu São Paulo, valor que se soma aos R$ 140 milhões do pacote principal.
Em troca, a Ticketmaster assume a venda de ingressos e o programa de sócio-torcedor do São Paulo, hoje administrado pela Feng. A empresa cobra taxa de administração de até 10% por ingresso digital e de 8% por ingresso físico. No programa de sócios, a taxa também é de 8% por associado.
Por que o São Paulo precisou do dinheiro
A diretoria do São Paulo vincula a aprovação do contrato à quitação de dívidas com o elenco. O clube atrasou salários neste mês e não pagou, em agosto, parcelas de direitos de imagem dos jogadores. O presidente Harry Massis trata a operação como “indispensável para recompor a saúde financeira” do clube no último trimestre da temporada.
O caminho até a votação foi longo. O contrato passou pelo Conselho de Administração e por uma comissão do Conselho Deliberativo, que deu parecer favorável com ressalvas em um documento de 39 páginas, assinado em 15 de setembro. A concorrente NewC, que apresentou proposta de cerca de R$ 500 milhões, contestou a escolha, mas a comissão não viu favorecimento à Ticketmaster.
Por que Melo queria antecipar a eleição
É aí que entra o calendário do Inter. Roberto Melo pediu ao Conselho Deliberativo que o segundo turno da eleição fosse antecipado em uma semana. O objetivo, segundo apurou o Bolavip, era ganhar tempo para avançar no acordo com a Ticketmaster antes da abertura da janela de transferências de janeiro, quando o Inter precisa estar livre dos bans para registrar reforços.
A proposta foi rejeitada na última segunda-feira, por 107 votos a 74, em reunião com 195 dos 337 conselheiros. Com isso, o calendário foi mantido: o primeiro turno será em 9 de novembro e o segundo, em 12 de dezembro. O novo presidente terá poucas semanas entre a posse e a janela para negociar, aprovar e colocar qualquer contrato em prática.
O que o dinheiro resolveria no Inter
O valor antecipado ao São Paulo é o mesmo que Alessandro Barcellos disse que o Inter precisa arrecadar até dezembro: R$ 140 milhões. O clube tem dois transfer bans ativos na Fifa, por dívidas de cerca de 700 mil euros com Midtjylland e Olympiacos, outros cinco processos que somam R$ 38 milhões e R$ 117 milhões em dívidas com transferências.
Se o Inter repetir o formato paulista, o aporte chegaria como antecipação de receitas, a ser devolvida com juros e descontada das receitas do Beira-Rio ao longo do contrato. Melo tem classificado o cenário financeiro do clube como “trágico”. Os outros candidatos, Leonardo Aquino e José Alfredo Amarante, também buscam parceiros para uma eventual gestão a partir de dezembro.





