Em um estudo sobre célular tumorais, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) tenta descobrir porque em determinadas proteínas, que deveriam ser encontradas no núcleo, acabam indo parar em locais diferentes. Entre os locais, estão até mesmo fora da célula. O fenômeno, que não era esperado, pode indicar um padrão relevante para fins de diagnóstico e prognóstico de diversos tipos de câncer.

Os resultados já obtidos foram divulgados na capa da revista científica Traffic. Os pesquisadores Juliana A. de Morais e André Zelanis, do Laboratório de Proteômica Funcional do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT-Unifesp), reanalisaram dados públicos em repositórios internacionais por cientistas de diversos países. Segundo Zelanis, uma fração das células podem ser enviadcas para fora. 

"As proteínas são produzidas e endereçadas para pontos diferentes dentro da célula. E existe uma fração delas que é enviada para fora da célula, para exercer alguma função em seu entorno, como formar uma matriz extracelular. As proteínas seguem uma rota definida de secreção, que chamamos de rota canônica. Proteínas que têm como destino ir para fora das células, por exemplo, têm sinais que indicam a ela essa rota de secreção."

Dessa maneira, quando se trata de células tumorais, costuma haver uma certa instabilidade genônima, além de um acúmulo de mutações em genes. Estes regulam o crescimento e a proliferação celular. Assim, são diversos os processos metabólicos que podem ficar desregulados. Entre eles está o da secreção de proteínas.

Etapas do estudo

A primeira etapa do estudo acabou sendo a captura, em repositórios públicos, os dados brutos sobre as células de tumores de mama, melanoma, ovário, cólon e sarcoma de Ewing (câncer raro que acomente, geralmente, crianças, adolescentes e jovens adultos). Algumas proteínas tiveram o núcleo da célula como destino, mas percorreram uma rota não canônica e foram secretadas de "forma indevida". Esse padrão foi observado em todos os tipos de célular tumorais analisadas.

No grupo inicial, 6.092 protéinas foram idenficadas, onde 28% adotaram rotas não canônicas. Dessa forma, foram secretadas para lugares diferentes do que estava previsto. Ao todo, 19 estão presentes em todos os tipos de células analisadas e foram observadas no citoplasma, mesmo que não tivessem funções associadas ao núcleo.

"Depois, fomos olhar se histologicamente existia algum registro mostrando que essas proteínas, na situação de tumor, estavam em localização diferente, o que foi observado em parte das 19 proteínas. Esta é outra observação independente que suporta nossos resultados."

Agora, os pesquisadores já estão planejando os próximos passos para buscar as respostas. Dessa maneira, irão selecionar as proteínas e investigar seu papel biológico nos diferentes tipos de câncer, partindo para estudos funcionais. Inicialmente, Morais e Zelanis devem estudar mais sobre o melanoma.

"Nosso estudo analisou até agora proteínas de bancos de dados de secretomas de células em cultura. Apenas uma das amostras era proveniente de célula de paciente. Agora queremos estudar amostras de plasma de pacientes com melanoma para achar essas proteínas, buscar marcadores. Precisamos fazer a validação de tudo o que descobrimos até agora em amostras de pacientes com e sem câncer para podermos comparar e ver se é um processo que ocorre apenas nas células tumorais."